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Cacuriá, a dança que une profano e sagrado em que maranhenses rebolam no São João

Nas redes sociais, vídeos da dança cacuriá acumulam milhões de visualizações e reforçam o ritmo como um dos destaques das festas juninas de São Luís

Édrian Santos
ÉDRIAN SANTOS

15/06/2025 • 12:43 • Atualizado em 15/06/2025 • 12:43

Os vídeos começaram a explodir nas redes sociais. São milhões de visualizações. Entre os milhares de comentários, há os dos ludovicenses, em tom de exaltação da própria cultura, mas também é possível encontrar várias pessoas, de diversas partes do Brasil, que não faziam ideia da existência dessa dança de roda maranhense tão envolvente, marcada pelo sagrado do divino e pelo profano da sensualidade.

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A manifestação em questão é o cacuriá, criada na década de 1970, em São Luís, atribuída a Alauriano Campos de Almeida, popularmente conhecido como “Seu Lauro”. Inclusive, a catalogação da dança pelo então Departamento de Turismo do Maranhão foi repercutida pelo jornal “A Gazeta”, em outubro de 1975. O trecho do periódico foi citado no artigo “Cacuriá: dinâmicas de uma tradição dançada”, da professora Luciana Hartmann.

Vídeos virais

Nas redes sociais, um dos grupos mais atuantes é o Cacuriá do Candinho. Vídeos dos ensaios e apresentações inundam as plataformas, cujas reproduções passam da casa dos milhões. A agremiação nasceu na comunidade Zumbi dos Palmares, em Paço do Lumiar, uma das quatro cidades que fazem parte da Ilha de São Luís, onde está a capital do Maranhão.

Uma leitura breve nos comentários de cada postagem mostra a curiosidade e admiração pela dança. Internautas de estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia até chegam a pedir que o Cacuriá do Candinho se apresente nas cidades deles. Em entrevista ao Band.com.br, a direção do grupo descreveu como os brincantes lidam com tamanha repercussão.

“Estamos superempolgados para a temporada 2025, após toda a repercussão na internet. São muitos comentários bons, de pessoas que começaram a seguir o grupo. Estão todos esperando para apreciarem as apresentações, pessoalmente, ao vivo e a cores. [Com a viralização dos conteúdos], começaram a surgir muitos contratos por todo o Maranhão e muitos convites para outros estados”, celebrou Cândido Amorim, fundador do Cacuriá do Candinho.

Oportunidade para os jovens

Para a comunidade onde o Cacuriá do Candinho está baseado, o reconhecimento do grupo impacta na autoestima de uma população que, por vezes, é esquecida. A juventude, por exemplo, vê na manifestação folclórica uma alternativa de mostrar o potencial de algo que vai além da dança. Significa, na verdade, a identidade de um povo por meio do batuque das caixeiras, do duplo sentido das canções, da leveza dos braços e da sensualidade do rebolado dos casais.

“[O cacuriá] é de grande importância para a minha comunidade, para o meu município e, principalmente, para os jovens que fazem parte do grupo, pois ocupam os horários vagos deles com a dança, com aprendizados, já que quem confecciona as indumentárias que vamos dançar no São João são todos eles. Isso faz bem para o corpo, para a alma, para o espírito, sabendo que, para a realidade das comunidades, hoje, é fácil entrar em caminhos da marginalidade”, continuou o artista.

Em São Luís, a rotina junina dos brincantes começa bem antes junho. No caso do Cacuriá do Candinho, composto por 74 integrantes, entre dançarinos, músicos e apoio, os ensaios iniciam-se ainda em janeiro. Para este ano, a temporada de apresentações está com agenda apertada. Ao longo de todo o período de festas, o grupo percorrerá pelo menos oito cidades.

“Dança hipnotizante”

Apesar da criação recente, do ponto de vista histórico, o cacuriá já se enraizou na cultura maranhense. Em São Luís, Almerice da Silva Santos, a “Dona Teté”, é tida coma principal voz das músicas que embalam as rodas, apesar de ter morrido há quase 15 anos. Até hoje, letras como “Jacaré Poiô”, “Mariquinha” e “Formiga” ecoam entre o azulejar das históricas ruas da capital.

Por muitos anos, Dona Teté, fundadora de um cacuriá homônimo, foi o reflexo das características tradicionais da dança ritmada pelas caixas, pequenos tambores que embalam as coreografias.

Apresentação do então Cacuriá de Dona Teté no Centro Histórico de São Luís (Antônio Martins/Governo do Maranhão)

Apresentação do então Cacuriá de Dona Teté no Centro Histórico de São Luís (Antônio Martins/Governo do Maranhão)

“Então, é uma dança hipnotizante pela sensualidade, pela beleza a qual é executada. As letras são sensuais e, ao mesmo tempo, cômicas, que fazem de crianças a idosos ficarem muito hipnotizados pela dança, querendo participar, dançar e cantar essas músicas”, pontuou historiadora Joelma Santos, doutora em ciências sociais e pesquisadora, entre outros temas, na área de religiosidade e cultura popular.

Sagrado e profano

A origem da dança tem relação direta com a Festa do Divino, especialmente após a derrubada do mastro. A celebração, estritamente religiosa e de origem portuguesa, ainda é bastante popular no Brasil. Já no Maranhão, após o tradicional rito católico, o cacuriá começou a entrar em cena, a partir da participação das caixeiras (mulheres que tocam as caixas), quando elas se reuniam para dançar e cantar.

Com o passar do tempo, essa reunião das caixeiras, após a Festa do Divino, ganhou contornos próprios, como os dançarinos em pares, duplo sentido nas letras das canções, outros instrumentos musicais e adesão popular, sobretudo no período das festividades de São João.

Caixeiras participam da Festa do Divino, em Alcântara, na Grande São Luís, manifestação que deu origem ao cacuriá (Handson Chagas/Governo do Maranhão)

Caixeiras participam da Festa do Divino, em Alcântara, na Grande São Luís, manifestação que deu origem ao cacuriá (Handson Chagas/Governo do Maranhão)

“A gente pode afirmar, sim, que o cacuriá é uma dança que vai unir o profano ao sagrado, até mesmo pela origem do cacuriá, que é lá do carimbó das caixeiras, momento que ocorre depois da derrubada do mastro nas festas do Divino Espírito Santo, principalmente nos terreiros [...]. Então, o corpo é utilizado para orar e, também, para dar vazão aos desejos. É o desejo da dança, do álcool, da comida”, considerou a pesquisadora em entrevista ao Band.com.br.

Agora, num contexto em que, cada vez mais, o cacuriá é exposto ao mundo pela difusão on-line, a manifestação segue firme na cena junina do Maranhão, tanto quanto as toadas do bumba meu boi, os batuques do tambor de crioula, a irreverência das quadrilhas e a elegância da dança portuguesa.

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