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Chuvas abaixo da média agravam a seca e pressionam reservatórios em SP

Inmet prevê chuva abaixo da média no 1º trimestre; reservatórios operam em nível crítico

GUILHERME JERONYMO

17/01/2026 • 06:47 • Atualizado em 17/01/2026 • 06:47

Cenário de escassez hídrica tem relação com o La Niña

Cenário de escassez hídrica tem relação com o La Niña

Sabesp/Divulgação

A média de chuvas em praticamente todas as estações de medição da região metropolitana de São Paulo está abaixo da média histórica para janeiro e deve permanecer assim ao longo de todo o primeiro trimestre do ano. A exceção é o posto do Mirante de Santana, na zona norte da capital, que já superou a média do mês.

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A situação é atribuída à dificuldade de avanço de frentes frias vindas do Sul e da umidade que normalmente chega pelo Oeste, a partir do Atlântico e da Amazônia. Essas condições estão relacionadas a uma área de alta pressão anômala associada à persistência do fenômeno La Niña no oceano Pacífico.

Com a influência do La Niña, confirmada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a condição de seca em todo o estado de São Paulo se agrava. Desde janeiro de 2024, o estado enfrenta seca severa ou extrema, com exceção do norte paulista, que registra seca severa nos últimos 12 meses.

As demais regiões são classificadas pelo Inmet como em condição de seca extrema no mesmo período. O ano de 2025 já é considerado seco pelo órgão, uma vez que as chuvas do verão 2024–2025 não foram suficientes para repor o estoque de água no solo.

“No primeiro trimestre teremos chuva abaixo da média em toda a área ao sul da mesorregião de Bauru, na região de Itapetininga e na região metropolitana”, afirmou o meteorologista Leydson Dantas, do Inmet.

Segundo ele, há possibilidade de melhora a partir do segundo semestre, com o enfraquecimento do fenômeno, cenário considerado 75% provável pela National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), órgão do governo dos Estados Unidos que monitora as águas do Pacífico e sua influência no clima global.

Também é esperada, segundo o pesquisador, uma concentração excepcional de chuvas na Região Sul do país, incluindo o litoral do Paraná, Santa Catarina e, principalmente, o Rio Grande do Sul, além de áreas da Argentina e do Uruguai, enquanto o La Niña mantiver força.

A escassez hídrica já provoca impactos de curto prazo em todo o estado de São Paulo e efeitos de longo prazo nas porções noroeste e leste, de acordo com o monitoramento mensal da Agência Nacional de Águas (ANA).

Os reservatórios que abastecem a capital e os demais municípios da região metropolitana estão em níveis críticos. Na medição desta sexta-feira (16), o Sistema Integrado Metropolitano (SIM), monitorado pela Sabesp, operava com 27,7% da capacidade, o mesmo índice registrado em 16 de janeiro de 2016, quando o sistema se recuperava da seca histórica de 2015, e superior ao volume observado em 16 de janeiro de 2014.

O sistema Cantareira, maior manancial da região e responsável por mais de 40% do volume total do abastecimento, estava com 19,39% da capacidade, segundo a ANA. Dentro do conjunto, o reservatório Jaguari-Jacareí, que concentra cerca de 85% do volume do Cantareira, operava com apenas 16,89%.

Segundo a Sabesp, o enfrentamento da crise envolve a ampliação da captação de água, com aumento da oferta no sistema Alto Tietê, que passou a receber volumes do rio Itapanhaú, além de investimentos na modernização de equipamentos e em medidas para reduzir perdas, como melhorias em tubulações, estações de tratamento e uma estação de bombeamento.

A companhia informou ainda que tem reduzido ou interrompido o abastecimento durante o período noturno desde o fim de agosto de 2025. Apesar dos investimentos, a gravidade do cenário persiste. Em nota, a Sabesp afirmou que “a região metropolitana de São Paulo enfrenta uma situação hídrica historicamente desafiadora”.

“A disponibilidade hídrica per capita local é extremamente baixa, em torno de 149 m³ por habitante ao ano, patamar comparável ao de regiões semiáridas e muito abaixo do recomendado internacionalmente. Esse quadro decorre da grande concentração populacional e da limitada oferta natural de água na bacia”, disse a empresa.

Ainda segundo a Sabesp, “em 2025, a região atravessou uma das piores estiagens dos últimos dez anos, com índices de chuva entre 40% e 70% abaixo da média e vazões afluentes drasticamente reduzidas”.

De acordo com a companhia, “os efeitos das mudanças climáticas já são evidentes, com chuvas cada vez mais irregulares, ondas de calor mais frequentes e demanda elevada, fatores que agravam a escassez hídrica”.

Secas pelo Brasil

A ANA divulgou nesta sexta-feira (16) o mapa do Monitor de Secas com dados consolidados de dezembro. Houve mudanças em regiões críticas do Nordeste, do norte de Minas Gerais e de Goiás, além da manutenção de condições severas no norte, centro e noroeste de São Paulo e no sul de Minas Gerais. Essas áreas apresentam, segundo a agência, impactos de longo prazo sobre a hidrologia e a ecologia.

O monitoramento classifica a seca em cinco níveis, de S0 (seca fraca) a S4 (seca excepcional). No Nordeste, houve piora dos indicadores, com avanço da seca extrema (S3) em partes do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco e da Bahia, além da expansão das áreas com seca fraca (S0) e moderada (S1) em Alagoas, Sergipe e Bahia. No Ceará, aumentaram as áreas com seca moderada (S1) e grave (S2). Por outro lado, houve recuo da seca grave (S2) no Maranhão, Piauí e Bahia, e da extrema (S3) no Piauí.

No Sudeste, cresceu a área com seca grave (S2) e moderada (S1) em Minas Gerais, além da seca moderada (S1) no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. No estado de São Paulo, o oeste e o centro-norte registraram melhora, com recuo das secas moderada e grave.

As regiões Sul e Norte apresentaram melhora na maior parte das áreas, com redução das secas fraca, moderada e grave no Paraná e desaparecimento da seca fraca no Rio Grande do Sul. No Norte, houve recuo da seca fraca no Acre, Amapá, Amazonas e Pará, da moderada no Amazonas e em Rondônia e da grave no Tocantins, além da atenuação da seca moderada para fraca em Acre, Amazonas e Rondônia.

Em contrapartida, o sul e o sudoeste do Paraná tiveram avanço da seca fraca, enquanto no Norte houve ampliação da seca fraca no Amapá, Amazonas, Pará e Roraima.

No Centro-Oeste, as chuvas ficaram acima da média em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ainda assim, persistem áreas com seca fraca em ambos os estados e com seca moderada em Mato Grosso do Sul, onde houve avanço pontual da seca grave no sudeste.

Arsesp monitora situação dos reservatórios e reforça ações de contingência

A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) informou, em nota, que acompanha de forma contínua a situação dos reservatórios e dos recursos hídricos no estado. “O atual cenário exige atenção e vem sendo conduzido com base em protocolos técnicos e preventivos estabelecidos no Plano Estadual de Segurança Hídrica”, afirmou.

A agência lembrou que, em outubro de 2025, o governo paulista anunciou um novo modelo de gestão integrada dos recursos hídricos, com o objetivo de proteger os reservatórios do Sistema Integrado Metropolitano e garantir o abastecimento da Grande São Paulo. “A iniciativa, desenvolvida em parceria com a SP Águas e a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), reforça a segurança hídrica e a sustentabilidade na gestão dos mananciais”, disse.

Atualmente, segundo a Arsesp, o SIM está na Faixa 3 de Atuação, com 27,74% de reservação hídrica. As ações de contingência em vigor, como a Gestão de Demanda Noturna (GDN), de dez horas diárias, e as campanhas de conscientização, têm como objetivo manter o sistema nessa faixa ou reduzir as restrições.

“Caso o SIM entre na Faixa 4 de Atuação, a partir de 27,53% de reservação, e nela permaneça por sete dias consecutivos, novas medidas, como a ampliação da GDN, serão adotadas, conforme o protocolo técnico”, explicou a agência.

Sobre a recuperação dos volumes, a Arsesp afirmou que a gestão do sistema é dinâmica e depende de fatores hidrológicos e da efetividade das medidas adotadas. Nesse contexto, disse acompanhar a situação em conjunto com a SP Águas para ajustes contínuos das estratégias.

A agência informou ainda que, por meio da GDN, implantada em agosto de 2025, mais de 70,29 bilhões de litros de água foram economizados até o início de janeiro, volume equivalente ao consumo de 12,33 milhões de pessoas durante um mês.

“O estado de São Paulo conta hoje com um sistema integrado e mais resiliente de reservatórios, capaz de enfrentar períodos prolongados de estiagem. A Arsesp reforça a importância do uso consciente da água”, afirmou o órgão, citando medidas como reduzir o tempo de banho, reaproveitar água da máquina de lavar e corrigir vazamentos.

A Agência Brasil informou que permanece aberta a manifestações da ANA sobre as medidas de contingência adotadas em São Paulo.

Com informações da Agência Brasil.

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