
Entenda o ciclo da violência doméstica
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A violência doméstica raramente começa com um tapa ou um empurrão. Na maioria das vezes, ela se instala de forma silenciosa e quase imperceptível, até se transformar em um ciclo difícil de romper, que muitas vezes tem como ponto final o feminicídio.
Foi para explicar essa dinâmica que a psicóloga norte-americana Lenore Walker desenvolveu o conceito do ciclo da violência, ao mapear padrões recorrentes em relações abusivas. A principal contribuição da teoria é mostrar que a violência não acontece de forma aleatória, mas segue uma lógica previsível de repetição e escalada.
Funciona como um elástico: a relação estica, rompe, afrouxa e logo volta a tensionar. A cada volta, o intervalo costuma ser mais curto e o risco, maior.
Essa lógica ajuda a entender por que tantas mulheres permanecem em relações abusivas. Não se trata de fraqueza, acomodação ou escolha individual, mas de um processo psicológico e emocional progressivo, marcado por medo, esperança e dependência. Informação e acolhimento são fatores centrais para romper esse ciclo.

Os dados mostram que, embora a violência doméstica continue sendo um problema grave no Brasil -com mais de mil mulheres mortas apenas em 2025 em razão da violência de gênero - cresce também a busca por informação.
Segundo a Sala Digital, parceria entre a Band e o Google, o interesse por conteúdos sobre o tema aumentou cerca de 30% nos últimos cinco anos no país. Já as pesquisas por medida protetiva, um recurso jurídico de proteção para mulheres e meninas em situação de risco de violência no ambiente familiar, atingiram o maior nível de toda a série histórica do Google Trends, com alta aproximada de 135% em relação aos cinco anos anteriores.
O conceito do ciclo da violência
O ciclo da violência descrito por Lenore Walker é composto por três fases principais, com características bem definidas. Como uma engrenagem, esse ciclo tende a se repetir (e a se acelerar) quando não é interrompido.
Fase 1: aumento da tensão
Na primeira fase, o ambiente se torna instável. O agressor passa a demonstrar irritação constante, ciúmes excessivo e comportamentos de controle. Pequenas situações viram motivo para críticas, humilhações, ameaças ou explosões verbais. O tom de voz muda. O medo se instala.
É nesse momento que muitas mulheres tentam “consertar” a relação: evitam conflitos, cedem, mudam comportamentos e justificam as atitudes do agressor. A violência ainda não é, necessariamente, física e, justamente por isso, costuma ser minimizada.
Fase 2: explosão da violência
Na segunda fase, a tensão acumulada explode. É o momento da agressão explícita, que pode ser física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial. A violência deixa de ser apenas uma ameaça e se materializa.
Para a vítima, esta é a fase mais perigosa. Muitas relatam medo intenso, sensação de paralisia, confusão mental e dificuldade de reagir ou pedir ajuda. Após a agressão, são comuns sentimentos de culpa, vergonha e medo das consequências de uma denúncia.
Fase 3: arrependimento ou “lua de mel”
Após a agressão, vem a terceira fase. Nela, o agressor demonstra arrependimento, pede desculpas e promete mudar. Costuma atribuir a violência a fatores externos, como estresse, álcool ou problemas no trabalho.
O comportamento se transforma. Ele passa a se mostrar carinhoso, atencioso e afetuoso. Essa fase também é conhecida como “lua de mel” e tem um efeito poderoso, pois reacende a esperança e reforça o vínculo emocional. A mulher se lembra dos momentos bons, acredita que a violência foi um episódio isolado e, muitas vezes, decide dar mais uma chance.
O problema é que, na maioria dos casos, essa fase não representa uma mudança real. Com o tempo, a tensão volta a crescer e o ciclo recomeça. A cada repetição, os intervalos entre as fases tendem a ficar menores e a violência, mais intensa.
Como pedir ajuda
Compreender o ciclo da violência doméstica é uma forma de lançar luz sobre as sutilezas de relações abusivas que, ao longo do tempo, podem deixar marcas físicas, emocionais e, em seus casos extremos, irreversíveis. Também ajuda a identificar se você (ou alguém próximo) vive uma situação semelhante e precisa de apoio.
O Disque 180 é um dos principais canais oficiais de ajuda. A Central de Atendimento à Mulher funciona 24 horas por dia e oferece orientação sobre direitos, informações sobre a rede de acolhimento e a possibilidade de registrar denúncias.
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