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Como Spirit Airlines que barateou voos e virou tendência acabou falindo

Pioneira nas tarifas baratas, empresa perde fôlego com custos altos e concorrência de rivais que copiaram modelo

Da redação
DA REDAÇÃO

02/05/2026 • 17:59 • Atualizado em 08/05/2026 • 12:29

Avião da Spirit Airlines em Porto Rico após empresa anunciar fim das operações

Avião da Spirit Airlines em Porto Rico após empresa anunciar fim das operações

Ricardo Arduengo-2.mai.2026/Reuters

A Spirit Airlines, que ajudou a popularizar passagens ultrabaratas e mudou o modelo de cobrança no setor aéreo, encerrou suas operações após 34 anos. O último voo partiu de Detroit e pousou em Dallas neste sábado (2).

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Conhecida pelos aviões amarelos e por campanhas publicitárias provocativas, a empresa chegou a valer cerca de US$ 5,5 bilhões na bolsa. Em comunicado, o CEO Dave Davis afirmou que a companhia teve papel central ao ampliar o acesso às viagens aéreas. “Por mais de 30 anos, a Spirit desempenhou um papel pioneiro em tornar as viagens mais acessíveis.”

O fechamento ocorre após uma sequência de crises. A companhia entrou duas vezes em recuperação judicial em um intervalo de dois anos, o que permitiu renegociar dívidas com credores. Nos meses mais recentes, tentou conter perdas com cortes de rotas, redução de custos, concessões de sindicatos e a busca por um acordo de financiamento com o governo dos Estados Unidos, que poderia ter evitado o colapso.

Ainda assim, a deterioração financeira se acelerou. A alta do combustível de aviação, impulsionada pela guerra envolvendo o Irã, pressionou o caixa da empresa em ritmo elevado. “Isso é extremamente decepcionante e não é o resultado que nenhum de nós queria”, afirmou Davis.

Aviso da Spirit Airlines em aeroporto de Orlando após anúncio de fechamento | Crédito: Miguel Rodriguez-2.mai.2026/Reuters

Aviso da Spirit Airlines em aeroporto de Orlando após anúncio de fechamento | Crédito: Miguel Rodriguez-2.mai.2026/Reuters

De operadora de turismo a símbolo do baixo custo

A origem da empresa remonta à Charter One Airlines, que operava pacotes turísticos nos anos 1980. A transformação veio duas décadas depois, quando a companhia passou a apostar em tarifas “desagregadas”, um modelo que separa o preço básico da passagem de serviços adicionais.

Nesse formato, o cliente paga apenas pelo transporte e decide se quer incluir itens como bagagem, escolha de assento e até a impressão do bilhete. A estratégia reduziu drasticamente o valor inicial das passagens, mas também gerou críticas de passageiros.

O modelo foi consolidado sob a gestão de Ben Baldanza, conhecido por sua defesa da cobrança item a item. Ele sustentava que a empresa não era “barata”, mas transparente ao mostrar custos que antes estavam embutidos nas tarifas.

A abordagem, vista como agressiva e até irritante por muitos clientes, acabou influenciando o setor. Grandes companhias aéreas passaram a adotar versões semelhantes, com tarifas de “economia básica”, reduzindo preços e cobrando à parte por serviços.

Marketing provocativo e imagem controversa

Além dos preços, a empresa se destacou por campanhas publicitárias ousadas, frequentemente baseadas em duplo sentido. Algumas ações geraram forte repercussão e críticas.

Entre elas, um anúncio após o desastre da plataforma Deepwater Horizon, em 2010, que fazia trocadilho com óleo de bronzeamento e o vazamento no mar. Em outro momento, a companhia lançou promoções com referências a escândalos políticos e expressões ambíguas.

A estratégia ajudou a consolidar a marca, mas também reforçou a percepção negativa entre parte do público. “Ninguém gosta da Spirit”, disse uma passageira ouvida pela imprensa, apesar de reconhecer que o preço era decisivo para escolher a empresa.

Pressão de custos e perda de vantagem

Com o tempo, a principal vantagem competitiva da Spirit começou a se dissipar. À medida que concorrentes tradicionais adotaram tarifas reduzidas, a empresa passou a enfrentar maior disputa por clientes.

Ao mesmo tempo, os custos operacionais aumentaram, especialmente após a pandemia de covid-19. A companhia acumulou prejuízos superiores a US$ 2,5 bilhões desde 2020, agravando sua situação financeira.

O golpe final veio com a disparada do petróleo, que elevou os custos do combustível de aviação. Sem margem para absorver o impacto, a empresa perdeu capacidade de sustentar o modelo.

Fim abrupto e impacto nos trabalhadores

O encerramento pegou funcionários e passageiros de surpresa. Cerca de 17 mil trabalhadores foram afetados, muitos com décadas de serviço. Parte deles soube da demissão pela mídia, segundo o sindicato da categoria.

No último dia de operação, a empresa transportou mais de 50 mil passageiros e ainda organizava o retorno de cerca de 1.300 tripulantes para suas bases.

Para clientes frequentes, o fim representa a perda de uma das opções mais baratas do mercado. Para o setor, deixa um legado duradouro: o modelo que ajudou a popularizar continua vivo — agora nas mãos de seus concorrentes.

Com informações do Estadão Conteúdo e da Associated Press.