Band Jornalismo

Como funciona sistema anticolisão que evitou choque de aviões no Atlântico?

Conhecido como TCAS, equipamento funciona de forma independente do controle de tráfego aéreo

Matheus Christov
MATHEUS CHRISTOV

20/07/2026 • 20:54 • Atualizado em 20/07/2026 • 20:54

Aviação - voos ficam perto de colisão no Atlântico

Aviação - voos ficam perto de colisão no Atlântico

Reprodução/FlightRadar24

O sistema anticolisão instalado em aviões comerciais foi decisivo para evitar o choque entre duas aeronaves que voavam em sentidos opostos sobre o Oceano Atlântico, na rota Brasil-Espanha, na noite de 10 de julho. O equipamento detectou que um Airbus A321 da Iberia e um Boeing 787-900 da Air Europa estavam na mesma altitude e determinou manobras coordenadas para restabelecer a separação segura dos voos.

Compartilhar

Conhecido como o TCAS (Traffic Alert and Collision Avoidance System), o sistema monitora de forma contínua o espaço aéreo ao redor da aeronave por meio das informações transmitidas pelos transponders dos outros aviões. Esses equipamentos informam dados como altitude, velocidade e distância, permitindo que o computador de bordo calcule se existe risco de colisão.

Quando identifica uma aproximação perigosa, o sistema emite inicialmente um alerta de tráfego, chamando a atenção dos pilotos para a presença da outra aeronave. Se o risco aumenta e a colisão passa a ser considerada iminente, o TCAS gera um "aviso de resolução", determinando de forma visual e sonora a manobra que deve ser executada pelos aviões.

A principal característica do sistema é que ele atua de forma coordenada entre os dois aviões. Se uma aeronave recebe a ordem para subir, a outra receberá automaticamente a instrução para descer ou manter o nível, evitando que ambas realizem a mesma manobra.

Segundo o especialista em segurança de voo Roberto Peterka, o equipamento costuma alertar as tripulações cerca de 30 segundos antes de uma possível colisão. Se a aproximação continua, aproximadamente 12 segundos antes do risco de impacto o sistema passa a determinar qual ação cada avião deve executar.

O TCAS é a última barreira de segurança. Ele vai avisar que, se nenhuma atitude for tomada, haverá uma colisão em voo. Um avião sobe e o outro desce para restabelecer a separação. --Roberto Peterka

Última camada de proteção

No espaço aéreo, a separação vertical mínima entre aeronaves é de 1.000 pés (cerca de 305 metros). De acordo com Peterka, o fato de dois aviões chegarem a uma situação em que o TCAS precise emitir o segundo alerta, considerado mais crítico, não é considerado normal.

Pode ter ocorrido uma distração dos pilotos, eles podem estar em um nível diferente do autorizado ou até o controle de tráfego aéreo pode não ter percebido a situação. Essas informações também chegam aos controladores. O TCAS é a última barreira de proteção. --Roberto Peterka

No incidente investigado pela Comissão de Investigação de Acidentes e Incidentes da Aviação Civil (CIAIAC), da Espanha, o Airbus da Iberia iniciou uma descida de 500 pés (152 metros), enquanto o Boeing da Air Europa subiu 400 pés (122 metros), conforme determinado pelo sistema. Após as manobras, o risco de colisão foi eliminado e os voos seguiram normalmente até seus destinos.

Investigação busca prevenir novos casos

A comissão espanhola ainda apura por que os dois aviões passaram a ocupar a mesma altitude durante a travessia do Atlântico. Para Peterka, o objetivo da investigação não será apontar culpados, mas identificar todos os fatores que contribuíram para a ocorrência.

Esse tipo de investigação procura entender quais fatores levaram ao incidente e transformar essas informações em medidas de prevenção. Normalmente é uma sequência de variáveis que conduz a uma situação como essa. --Roberto Peterka

A importância do sistema anticolisão

Um dos episódios mais conhecidos envolvendo o sistema TCAS ocorreu em 29 de setembro de 2006, na colisão entre o Boeing 737-800 da Gol e o jato executivo Legacy 600, sobre a região amazônica.

Na ocorrência, os dois aviões voavam na mesma altitude em sentidos opostos quando houve uma colisão em pleno voo. A ponta da asa esquerda do Legacy atingiu a asa esquerda do Boeing da Gol, causando danos estruturais que levaram à queda do avião comercial e à morte das 154 pessoas a bordo. O jato executivo, apesar dos danos, conseguiu pousar em segurança.

As investigações apontaram uma sequência de fatores contribuintes, entre eles problemas relacionados ao funcionamento do transponder do Legacy durante parte do voo, o que impediu a atuação do sistema anticolisão (TCAS) nas duas aeronaves.

Tópicos relacionados