O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso preventivamente pela Polícia Federal em Brasília (DF) sob suspeita de comandar uma organização criminosa envolvida em fraudes financeiras, corrupção e até o uso de “milícia privada” para intimidar opositores.
Vorcaro foi alvo da operação “Compliance Zero”, que apura um complexo esquema de fraudes financeiras do Banco Master, incluindo a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB). As fraudes afetaram milhões de clientes e exigiu o ressarcimento de mais de R$ 50 bilhões pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Além dos crimes financeiros, a Polícia Federal apura indícios graves de que Vorcaro teria dado ordens para intimidar jornalistas, ex-funcionários e empresários. As investigações também apontam que ele teria tido acesso antecipado a informações sigilosas sobre o andamento do caso, o que configura obstrução de Justiça.
Prisão
Vorcaro foi preso duas vezes na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Na primeira, em novembro de 2025, o empresário foi detido no Aeroporto de Guarulhos, durante uma tentativa de deixar o país. A segunda vez, em 4 de março, após ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que analisou mensagens no celular do empresário, encontrou indícios de ameaças, corrupção e tentativa de interferência em decisões regulatórias.
A defesa de Vorcaro entrou com pedido de liminar, mas a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) manteve, por unanimidade de votos, a prisão preventiva do banqueiro Daniel Vorcaro e de outros investigados do “Caso Master”.
Delação premiada
A defesa de Daniel Vorcaro está em negociações avançadas para fechar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. Um passo decisivo para o acordo foi dado com a assinatura de um termo de confidencialidade entre Vorcaro, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR), o que formaliza o início das tratativas.
A partir de agora, as partes envolvidas se dedicarão a definir os termos da colaboração. Este processo inclui a elaboração de uma lista de pessoas que o banqueiro pretende delatar e, crucialmente, a apresentação das provas que corroboram suas futuras declarações.
Para facilitar e acelerar as negociações, uma mudança logística significativa ocorreu na última quinta-feira (19). Vorcaro foi transferido de helicóptero da Penitenciária Federal em Brasília para a Superintendência da Polícia Federal na mesma cidade. A transferência, autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), coloca o banqueiro fisicamente mais próximo dos investigadores e de seus advogados, otimizando o processo de negociação do acordo.
Banco Master
A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, ocorreu após uma série de irregularidades financeiras como a comercialização de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com taxas de retorno impraticáveis, chegando a 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), além do descumprimento de normas regulatórias.
De acordo com investigação da Polícia Federal, o Banco Master criou carteiras de crédito fictícias com a emissão de cerca de R$ 50 bilhões em CDBs sem comprovar capacidade de pagamento, usando ativos inexistentes adquiridos da empresa Tirreno para inflar artificialmente o patrimônio.
Essa estratégia gerou uma crise de liquidez irreversível, impedindo o banco de honrar os resgates junto aos seus investidores e revelando uma rede de fraudes que se estendia por diversos setores.
Ministros do STF
A proximidade de Vorcaro com os ministros colocou o STF sob pressão. A defesa de Vorcaro alega que os vazamentos de seu celular são seletivos e visam atacar a Corte, enquanto investigadores acreditam que o banqueiro usava o patrocínio de eventos jurídicos luxuosos para construir um "escudo" de influência no tribunal.
A empresa da família do ministro, a Maridt Participações, vendeu fatias de um resort de luxo (Tayayá) para um fundo gerido pela Reag Investimentos, grupo que atua em parceria direta com o Banco Master.
A PF encontrou conversas no celular de Vorcaro mencionando um suposto pagamento de R$ 20 milhões à empresa ligada a Toffoli. O ministro nega veementemente qualquer recebimento ilícito. Toffoli também teria viajado em um jato privado com um advogado ligado à defesa do banco para assistir a uma partida de futebol. Com isso, o magistrado, que antes concentrava as principais diligências e quebras de sigilo, tornou-se alvo de críticas por sua ligação indireta com o grupo econômico investigado.
Já a relação com o ministro Alexandre de Moraes, também do STF, veio a público através de prints encontrados nos dispositivos de Vorcaro, embora o ministro conteste a veracidade e o contexto delas. Mensagens de 2024 mostram Vorcaro consultando Moraes sobre a lista de convidados para um fórum jurídico em Londres patrocinado pelo Banco Master. O ministro teria, inclusive, orientado o bloqueio de certos empresários, como Joesley Batista, do evento.
Surgiram novos registros de mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes em novembro de 2025, justamente na data da primeira operação policial contra o banqueiro, perguntando sobre "novidades" ou "bloqueios". O STF emitiu nota afirmando que as mensagens não foram enviadas para o contato oficial do ministro e que se trata de uma "ilação mentirosa".
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