
Fila para abastecer em um posto de gasolina na Rússia
REUTERS/Alexey Malgavko
É uma cena que tem se repetido em toda a Rússia. Primeiro na península ocupada da Crimeia. Depois na Sibéria, e agora até mesmo nos arredores de Moscou. São longas filas de automóveis, algumas com quilômetros de extensão, que têm se formado em postos de combustíveis.
No último sábado (4), uma fila na cidade siberiana de Ust-Ordynsky ilustrou a crescente frustração dos russos com o agravamento da escassez de combustíveis no país.
Motoristas que já aguardavam por cinco horas na fila observaram um carro da marca Audi passando por dezenas de outros automóveis, efetivamente furando a fila. A frustração de quem esperava logo se transformou em fúria, com motoristas gritando, enquanto outros registravam a cena com seus celulares. No final, um policial que tentava organizar a fila teve que sacar sua pistola para acalmar a multidão.
Não foi a única região a registrar tensão. Em um sinal de preocupação de que os ânimos dos motoristas pudessem se exaltar, as autoridades de Anapa — um balneário na costa russa Mar Negro — decidiram arregimentar grupos de cossacos para ajudar a manter a ordem enquanto os carros formavam filas para abastecer.
Em outro caso, uma imagem de satélite verificada pela rede BBC mostrou que uma fila de carros na região de Zabaykalsky chegou a 4,5 quilômetros podia ser vista do espaço. Um deputado da região afirmou que motoristas estavam tendo que aguardar até 36 horas para obter 15 litros de gasolina.
Cada vez mais taxistas também estão deixando de realizar corridas. Representantes do setor informaram a um jornal russo que a crise de combustível reduziu o número de corridas em cerca de 20%. Motoristas de aplicativos, por sua vez, têm relutado em aceitar viagens longas, por receio de não conseguirem abastecer seus carros depois.
A escassez e o aumento de preços da gasolina também têm levado vários russos a adaptar seus carros para que funcionem com gás liquefeito de petróleo (GLP).
Todas essas cenas tem uma causa comum: a intensa campanha de ataques com drones lançada pela Ucrânia nos últimos meses contra refinarias russas. Mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo do mundo, a Rússia tem agora se visto obrigada a importar mais gasolina de países vizinhos, como Belarus, para tentar manter o país funcionando.
Limites à compra
A falta de combustível e o aumento nos preços também têm arranhado o discurso de Vladimir Putin de que a guerra contra a Ucrânia e as sanções ocidentais não têm maiores efeitos no cotidiano dos russos.
Como era de se esperar, os russos estão agora mais pessimistas em relação à situação de sua economia do que em qualquer outro momento nos últimos 20 anos, segundo uma pesquisa do instituto Gallup publicada no mês passado.
Putin reconheceu, numa entrevista televisiva no fim de junho, que há "uma certa escassez" de combustível, mas disse que ela não é crítica.
Porém, a situação tem forçado autoridades locais a impor restrições à venda de gasolina e diesel. A primeira região afetada foi a península anexada da Crimeia, onde as autoridades proibiram a venda de combustível em 21 de junho, com exceção de ambulâncias e serviços públicos.
Desde então, as limitações à venda se espalharam pelo país e já afetam 80 regiões, incluindo Moscou e São Petersburgo. Grandes redes de postos de gasolina, incluindo Tatneft, Lokoil e Rosneft, foram obrigadas a impor limites.
As principais plataformas russas de comércio eletrônico proibiram a venda de gasolina e estão bloqueando tentativas de negociação, ainda assim, um mercado paralelo com preços inflacionados tem pipocado em plataformas como o Telegram.
Ataques da Ucrânia
A Ucrânia intensificou recentemente os ataques à infraestrutura energética russa com o objetivo principal de paralisar a fonte de financiamento do esforço de guerra de Moscou, o que resultou numa escassez generalizada de combustível, sentida pela população russa.
Várias refinarias em todo o país foram atingidas. Nesta segunda-feira, a Ucrânia atacou a refinaria de Omsk, situada nas profundezas da Sibéria, a cerca de 2.700 km de distância do território controlado pela Ucrânia, e levou à interrupção das operações.
Trata-se da maior produtora de gasolina da Rússia, e qualquer interrupção provavelmente agravaria a escassez de combustível no país.
Outro alvo foi uma refinaria de petróleo perto de Moscou, que interrompeu as operações após um ataque de drone ucraniano em 16 de junho. Em 18 de junho, outro ataque danificou unidades de processamento e provocou vários incêndios no local.
Na semana passada, a Ucrânia afirmou que já eliminou com seus ataques de longo alcance quase 43% da capacidade de refino de petróleo da Rússia.
Efeitos também nos países vizinhos
Especialistas disseram que a escassez de combustível na Rússia será sentida também em países vizinhos, como o Quirguistão e o Cazaquistão, que não são autossuficientes e importam combustíveis da Rússia.
O Quirguistão aguarda entregas de combustível da China e de Belarus, comunicou o país nesta terça-feira, para ajudar a lidar com os problemas na Rússia, seu principal fornecedor.
No Cazaquistão a situação motivou uma reunião de emergência do governo em Astana para tratar da ameaça de escassez de derivados de petróleo antes da colheita de trigo, uma das principais exportações do país.
Além disso, cidadãos russos estão cruzando a fronteira com o Cazaquistão para abastecer seus carros e, por vezes, encher contêineres para contrabando, o que obriga as autoridades cazaques a intensificar a vigilância e a investir mais no controle alfandegário.
Nos últimos dias foram registradas 61 tentativas de contrabando, envolvendo mais de 3 toneladas de mercadorias, segundo o vice-ministro das Finanças do Cazaquistão, Yerzhan Birzhanov.
Importações de Belarus
Em junho, a Rússia importou um volume recorde de 141 mil toneladas de gasolina de Belarus, informou o jornal financeiro moscovita Vedomosti.
Essas importações são 2,4 vezes maiores que o volume importado em maio. Em junho de 2015, as importações russas de gasolina totalizaram apenas mil toneladas.
Segundo o jornal russo, Belarus está redirecionando suas exportações de combustível, originalmente destinadas a países da Ásia Central, para a Rússia.
as (Reuters, AFP, Efe)
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