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O que os EUA realmente querem da Venezuela? Entenda a crise

Petróleo, contenção da China e uma nova doutrina de segurança explicam a pressão de Washington sobre o regime de Maduro e o risco crescente de conflito indireto

Babi Fava
BABI FAVA

18/12/2025 • 18:15 • Atualizado em 18/12/2025 • 18:15

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Reprodução: Reuters / Brian Snyder

Quando a crise entre Estados Unidos e Venezuela entra na pauta de buscas dos brasileiros, o interesse se desloca imediatamente do debate diplomático para a análise de risco de conflito. Entre as principais pesquisas dos brasileiros no Google sobre o cenário, está: “os EUA vão atacar a Venezuela?”. Trata-se menos de um questionamento sobre intenção e mais uma confirmação de que o público já percebe que a crise se move no plano militar.

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No entanto, a chave para decifrar a escalada de pressão máxima do governo de Donald Trump está na pergunta que revela a estratégia de longo prazo: “o que o governo americano quer com a Venezuela?”. A resposta reside não apenas em sanções e retórica, mas na fundação de uma nova doutrina de segurança regional.

O projeto geopolítico de Trump

A escalada de pressão dos EUA, incluindo o anúncio de bloqueio naval total a petroleiros sancionados em 16 de dezembro de 2025, não é uma ação isolada, mas o braço de uma doutrina de segurança hemisférica renovada.

O objetivo central é a remoção do regime de Nicolás Maduro, que Washington acusa de ser um "narco-regime" ligado a cartéis criminosos e apoiado por adversários estrangeiros.

Essa estratégia está formalizada na Estratégia de Segurança Nacional (NSS) da administração Trump, que redefine o Hemisfério Ocidental como “perímetro de segurança imediato” dos Estados Unidos.

Dentro desse marco, a política americana busca conter a influência crescente de potências como China, Irã e Rússia, que oferecem respaldo técnico, econômico e político ao governo Maduro. O bloqueio à presença desses atores na região é apresentado como uma atualização da Doutrina Monroe, frequentemente descrita por analistas como o chamado “Corolário Trump”.

Ao mesmo tempo, o endurecimento da postura externa é articulado como uma questão de segurança doméstica. A Casa Branca sustenta que a repressão ao chamado “narcoterrorismo” (com a designação do Cartel de los Soles como organização terrorista estrangeira) é fundamental para reduzir fluxos de drogas e conter pressões migratórias que impactam diretamente os Estados Unidos.

O xadrez do petróleo

O motor por trás da intensa pressão militar e econômica é a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, estimada em 303 bilhões de barris, superando a Arábia Saudita. Analistas apontam que, apesar do discurso de combate ao narcotráfico, o acesso a essas amplas reservas é uma prioridade estratégica para Washington.

A relevância do petróleo venezuelano vai além do consumo interno dos Estados Unidos e se conecta diretamente a questões de segurança global. Em termos estratégicos, o petróleo é tratado como insumo central para cenários de guerra, por ser a principal fonte de energia para aviões, navios e blindados.

Nesse contexto, o transporte de petróleo pelo Mar do Caribe é considerado por planejadores militares mais rápido e seguro do que rotas provenientes de outros continentes, o que amplia o valor geopolítico da Venezuela.

Além disso, o controle sobre o petróleo venezuelano também está inserido na lógica de contenção de rivais estratégicos. A China, que se tornou o principal destino do petróleo do país após o endurecimento das sanções americanas, já detém acesso a três das quatro maiores reservas mundiais.

A tentativa de Washington de recuperar influência sobre a produção venezuelana busca, ao menos em parte, limitar o acesso de potências concorrentes a uma fonte considerada vital de energia.

Empresas americanas, como a Chevron, permanecem operando com licença especial na Venezuela, o que sublinha o interesse em manter um pé no setor energético local.

A crise lida em termos de “Guerra Furtiva”

As buscas brasileiras não se concentram apenas na intenção americana ("o que eles querem?"), mas também na logística da ameaça: "qual a distância da Venezuela para os Estados Unidos?". A dúvida reflete o medo de que a crise saia do papel e entre no campo da ação, percepção que é totalmente coerente com a estratégia americana de "Guerra Furtiva".

Essa tensão também pode ser chamada de “Guerra Híbrida” e opera na chamada “zona cinza”, um espaço deliberadamente ambíguo em que as fronteiras entre paz e guerra permanecem difusas. Nesse ambiente, ações militares, diplomáticas, econômicas e informacionais se sobrepõem sem a caracterização formal de um conflito armado.

É dentro dessa lógica que se insere o teatro militar montado pelos EUA. A mobilização de cerca de 15 mil soldados, mais de uma dúzia de navios de guerra e o deslocamento de caças F-35 para Porto Rico não é interpretada por analistas como preparação para uma invasão total e prolongada. O movimento é descrito como uma coreografia militar calculada, voltada a demonstrar superioridade, intimidar o adversário e paralisar sua capacidade de iniciativa.

Ainda assim, o risco de escalada é considerado elevado. Avaliações estratégicas indicam que a ampliação das operações americanas para incluir ataques diretos em território venezuelano é vista como altamente provável, com estimativas de 50% ou mais de chance de ocorrer em 2026, e com potencial de alto impacto para os próprios interesses dos Estados Unidos.

Diante desse cenário, a aposta central de Washington não seria uma invasão de alto custo humano e político, mas a aceleração de um processo de implosão do regime de Nicolás Maduro. A estratégia busca explorar fragilidades políticas, econômicas e psicossociais do governo venezuelano, ampliando a pressão até o colapso interno.

A narrativa do "roubo" e o impacto humanitário

A pergunta em grande escala no Brasil de “o que a Venezuela roubou dos Estados Unidos?” captura a narrativa política de Washington de que o regime de Maduro confiscou ativos e deve ser retaliado. O próprio Trump reforçou essa retórica, exigindo que Maduro "devolva aos Estados Unidos todo o petróleo, terras e outros bens que nos roubaram".

Contudo, a dimensão mais profunda da crise está no impacto direto das sanções sobre a população venezuelana. Juristas e especialistas ligados à ONU têm classificado esse efeito como uma forma de punição coletiva, prática considerada proibida pelo Direito Internacional Humanitário, justamente por atingir civis de maneira indiscriminada.

Do ponto de vista econômico, as sanções concentradas nos setores de petróleo, ouro e mineração provocaram perdas estimadas em US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas entre 2017 e 2024 — um montante superior ao próprio PIB do país. O resultado foi descrito por analistas como o maior colapso econômico já registrado em um país que não estava formalmente envolvido em um conflito armado em quase meio século.

Esse estrangulamento econômico se traduziu em uma crise humanitária severa. A escassez de alimentos, o colapso de serviços públicos e o impacto direto sobre o sistema de saúde agravaram a vulnerabilidade da população. Estimativas indicam que cerca de 80 mil pacientes com HIV/AIDS precisaram interromper seus tratamentos por falta de medicamentos essenciais.

O agravamento das condições de vida também impulsionou um êxodo em escala histórica. O endurecimento das sanções contribuiu para a saída de mais de 7,7 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos, hoje dispersos por diferentes regiões do mundo, consolidando uma das maiores crises migratórias da atualidade.

Para além do prenúncio de uma guerra tradicional, a crise EUA-Venezuela é a reafirmação da ordem hegemônica americana por meios indiretos, um confronto movido por interesses energéticos e geopolíticos, cuja arena principal é a mente dos atores-chave e cujo custo humano é pago pela população sitiada. Como em um jogo de pôquer de alto risco, os EUA usam a ameaça da guerra convencional (a armada no Caribe) como blefe, enquanto a verdadeira estratégia é a pressão cirúrgica e invisível para forçar o colapso interno do adversário.