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O Brasil entraria na guerra? A resposta está na nossa diplomacia

Com buscas disparando no Google, professora de relações internacionais explica por que a tradição diplomática brasileira torna improvável um envolvimento militar direto no conflito entre EUA, Israel e Irã

Babi Fava
BABI FAVA

06/03/2026 • 11:43 • Atualizado em 06/03/2026 • 11:43

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Agência Brasil

A escalada do conflito no Oriente Médio não ficou restrita às manchetes internacionais. A preocupação chegou às telas dos brasileiros e, principalmente, às buscas no Google. Nos últimos dias, perguntas como “Brasil vai entrar em guerra?”, "Vai ter guerra no Brasil?" e “O Brasil pode entrar em guerra?” passaram a aparecer com frequência entre as pesquisas feitas no país.

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Por trás dessas dúvidas está um temor compreensível: o receio de que um confronto envolvendo potências globais possa se expandir. Mas, quando se observa a tradição diplomática brasileira e a posição oficial do país diante de crises internacionais, especialistas apontam que a possibilidade de participação direta do Brasil em um conflito armado é considerada remota.

Neutralidade como resposta

Diferentemente de países como Reino Unido e Austrália — que mantêm alianças militares formais com os Estados Unidos — o Brasil historicamente adota uma política externa de neutralidade em conflitos internacionais, priorizando o diálogo diplomático.

Segundo a professora de Relações Internacionais, Priscila Caneparo, esse posicionamento é um traço consolidado da política externa brasileira. “O Brasil historicamente possui uma política externa de neutralidade em relação aos conflitos. O que eu quero dizer com isso? Ele não se coloca nem de um lado, nem do outro lado”, explica.

De acordo com a especialista, essa postura não é apenas circunstancial, mas parte de uma tradição diplomática construída ao longo do século 20, que vê o país atuando frequentemente como mediador em crises internacionais.

“Também é marcado por ser historicamente um mediador internacional desde a eclosão da Segunda Guerra Mundial. A nossa política externa é marcada por traços da diplomacia tradicional, ou seja, por acreditar que o diálogo é a melhor opção”, afirma.

Diante da atual escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã, Caneparo avalia que o Brasil tende a manter essa linha de atuação.

“Ante esses conflitos mais recentes, como o caso agora Estados Unidos, Israel versus Irã, é muito pouco provável que o Brasil vá ter uma intromissão direta nessa situação”, diz.

Posição oficial do governo

A avaliação da especialista encontra respaldo nas manifestações oficiais do governo brasileiro. Em notas públicas, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) condenou ações que possam violar a soberania de Estados e pediu “máxima contenção” das partes envolvidas.

O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, também criticou a escalada do conflito e classificou a morte de um líder em exercício como “condenável e inaceitável”, embora tenha alertado para o risco de agravamento da crise na região.

O papel das Forças Armadas

O temor de que o Brasil possa ser arrastado para a guerra também esbarra na realidade operacional das Forças Armadas brasileiras. Até agora, as medidas adotadas pelo governo têm caráter preventivo e humanitário, não militar.

A Força Aérea Brasileira (FAB) mantém aeronaves estratégicas, como o KC‑30 (Airbus A330 MRTT) e o Embraer KC‑390 Millennium, em regime de prontidão.

O objetivo é viabilizar eventuais operações de repatriação de brasileiros que estejam em áreas de risco, caso o conflito se intensifique — estratégia semelhante à adotada na Operação Voltando em Paz.

No campo político, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, reforçou que o país acompanha o cenário com atenção, mas mantém uma postura cautelosa. “Nós nos preparamos para tempos difíceis, mas estamos torcendo sempre pela paz”, afirmou.

A guerra que pode chegar ao Brasil

Se a probabilidade de um confronto militar envolvendo diretamente o Brasil é considerada baixa, os impactos econômicos do conflito já começam a aparecer.

O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, tornou-se um ponto de tensão central no conflito. Qualquer bloqueio ou instabilidade na região tende a pressionar o preço internacional da energia.

Isso pode afetar diretamente o Brasil por meio de três canais principais: combustíveis mais caros, impacto no custo do transporte e possíveis efeitos sobre o comércio internacional.

Além disso, o Irã figura entre os importantes compradores de commodities agrícolas brasileiras, como milho e soja. Uma escalada mais ampla do conflito ou novas sanções internacionais podem afetar esse fluxo comercial.