A defesa da família da soldado Gisele Alves afirma que a presença do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan no local do crime serviu para intimidar os policiais militares que atenderam a ocorrência. O magistrado chegou ao apartamento às 9h07 do dia 18 de fevereiro, enquanto as primeiras informações sobre o disparo que atingiu a cabeça da soldado ainda eram levantadas.
Gisele ainda estava viva quando o desembargador foi apresentado aos PMs pelo marido dela, o tenente-coronel Geraldo Neto, agora réu por feminicídio. Câmeras corporais registraram o momento em que Neto introduz o magistrado aos agentes: "O Dr. é desembargador de Justiça, tá?".
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) solicitou ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que Cogan explique sua conduta e o motivo de ter ido ao local logo após o crime.
Alteração da cena e desobediência
Imagens das câmeras dos policiais revelam que, desde o início, houve desconfiança sobre as atitudes do tenente-coronel. Antes de seguir para a delegacia, Geraldo Neto desobedeceu orientações e insistiu em tomar banho. Ao ser questionado por um policial sobre a necessidade de agilizar o procedimento, o oficial rebateu: "Eu tenho 34 anos de serviço, eu sei o que 'tô' falando. Eu vou tomar banho, irmão".
A perícia técnica já descartou a hipótese de suicídio sustentada pelo réu, apontando que o próprio tenente-coronel alterou a cena do crime. Em um dos momentos registrados, Neto sugeriu que alguém havia mexido no quarto onde dormia sozinho, o que foi rebatido por um agente: "O senhor sabe que tudo é filmado. Então, esse tipo de questionamento não cabe mais".
Histórico de assédio e posição do governo
Além do processo por feminicídio, Geraldo Neto responderá por assédio sexual contra uma subordinada. Uma cabo da PM denunciou que o oficial tentou beijá-la à força e, após as recusas, passou a persegui-la, culminando em uma transferência compulsória. Em depoimento, a policial pediu anonimato por medo, afirmando que o tenente-coronel "é capaz de tudo".
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, falou pela primeira vez sobre o caso nesta terça-feira (24). "A melhor resposta que a gente pode dar é a punição dura do responsável. O policial está preso, vai ser julgado e a gente espera que ele seja condenado com todo o rigor da lei", declarou. Geraldo Neto segue detido no Presídio Militar Romão Gomes (especial da PM).
O que diz o magistrado
Em depoimento à polícia, o desembargador Marco Antônio Cogan afirmou que foi ao apartamento apenas para atender ao pedido de um amigo e garantiu que não interferiu na ocorrência. O CNJ agora avalia se o magistrado violou deveres funcionais para decidir entre o arquivamento do caso ou a abertura de um processo administrativo disciplinar.
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