Jornal da Band

Enchentes no RS afetaram saúde mental de 67,5% dos atingidos, diz IBGE

Levantamento inédito mostra que mais de 6,3 milhões de gaúchos sentiram os efeitos da tragédia e 920 mil trocaram de endereço desde a catástrofe

EDUARDO CARVALHO

01/07/2026 • 20:38 • Atualizado em 01/07/2026 • 21:07

Dois anos depois das enchentes no Rio Grande do Sul, uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (1º) pelo IBGE mostra a dimensão dos impactos da tragédia sobre a população. Mais de 6,3 milhões de moradores foram afetados pela catástrofe climática de 2024, e 67,5% deles tiveram a saúde mental abalada pelas enchentes.

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Na casa de Andréia Padilha, em Porto Alegre, as paredes ainda carregam as marcas do que aconteceu. A filha Helena, de 3 anos, não deve se lembrar, mas saiu do imóvel carregada no colo quando a água chegava à cintura da mãe. O medo permanece.

"A gente fica apreensivo, a gente não quer que aconteça de novo. Mas às vezes enche de água o pátio, a gente já pega o rodo e fica 'hoje vai chover, vai chover'", relata a autônoma.

Falar da enchente de 2024 é falar sobre um trauma para os gaúchos. Segundo a psicóloga Luana Winkelmann, os episódios deixaram sequelas duradouras. "Ficaram muitos sintomas residuais de estresse pós-traumático, de ansiedade, de depressão", afirma.

Ela acrescenta que o sofrimento vai além da perda de pessoas: "O luto não é apenas um processo de elaboração de uma perda de um ente querido, mas uma perda de um objeto investido de amor, seja ele real ou simbólico".

A pesquisa também aponta que, depois da enchente, 920 mil pessoas trocaram de endereço. Para boa parte delas, a mudança foi consequência direta da tragédia, já que muitas casas ficaram completamente destruídas – como as da Zona Norte de Porto Alegre, uma das regiões mais devastadas.

Foi o que aconteceu com o montador Guilherme Pfluckseder. Assim que a água baixou, ele foi até o bairro onde morava, em Arroio do Meio, no Vale do Taquari, e percebeu que nunca mais poderia voltar a viver ali.

Em registro de 2024, ainda em meio ao desespero, ele desabafou: "Eu não consigo parar de chorar porque, eu juro pra ti, eu achei que nunca mais eu ia poder dizer 'eu te amo' pra um filho meu".

Hoje, Guilherme é um dos gaúchos com um novo lar. "Essa casa, onde eu moro, é com o esforço meu, sabe? Meu e da minha esposa. A gente trabalha, paga a prestação, é um lugar onde até hoje não houve casos de alargamento", conta o montador, hoje reconstruindo a rotina longe da área de risco.

A memória da tragédia segue viva e alimenta o receio de novos desastres. As enchentes de maio de 2024, a maior catástrofe climática da história do estado, deixaram mais de 180 mortos e forçaram centenas de milhares de pessoas a deixar suas casas.