Motoristas e entregadores de aplicativo convocaram uma paralisação nacional para esta terça-feira (14) em protesto contra a votação do projeto de lei que regulamenta o setor. O texto, que tramita na Câmara dos Deputados sob a articulação do presidente da casa, Hugo Motta, divide opiniões entre as plataformas digitais e as entidades que representam os trabalhadores. A proposta introduz uma nova classificação trabalhista no país: o "trabalhador autônomo plataformaizado", uma categoria intermediária que não possui vínculo via CLT, mas garante alguns benefícios básicos.
A nova versão do relatório trouxe alterações significativas em relação ao texto original, o que gerou forte resistência da categoria. Entre as mudanças, o direito garantido à construção de pontos de apoio — com infraestrutura de banheiros, chuveiros e refeitórios — deixou de ser uma obrigação imediata para se tornar uma instalação gradual. Além disso, o valor do seguro para acidentes com invalidez ou morte foi reduzido de R$ 150 mil para R$ 120 mil.
Disputa sobre taxas e remuneração mínima
O ponto de maior conflito refere-se à forma de pagamento aos profissionais. A primeira versão do projeto estabelecia uma taxa obrigatória de R$ 8,50 por cada entrega realizada. Contudo, o novo relatório abre uma segunda possibilidade: a remuneração por tempo trabalhado, baseada na divisão do salário mínimo pelas horas em que o profissional estiver logado e disponível. No novo modelo, a escolha do método de pagamento caberia às plataformas, e não aos entregadores.
O setor empresarial, representado por figuras como o CEO do iFood, Diego Barreto, defende a regulamentação, mas alerta para o impacto de taxas fixas elevadas. Segundo Barreto, uma taxa mínima de R$ 8,50 poderia inviabilizar pedidos de baixo valor em regiões periféricas. Ele exemplifica que, em entregas com custo médio de R$ 18, o acréscimo da taxa representaria um aumento de quase 50%, o que poderia levar restaurantes locais a perderem vendas e, consequentemente, reduzir a oferta de trabalho para os entregadores dessas regiões.
Pressão no Congresso e paralisação
A convocação da greve geral foi estrategicamente marcada para o mesmo dia em que Hugo Motta pretende aprovar o relatório na Comissão Especial e levá-lo imediatamente para votação em plenário. Os trabalhadores alegam que a proposta atual retira direitos que haviam sido conquistados nas primeiras rodadas de negociação e precariza ainda mais a atividade sob o pretexto da regulamentação.
A paralisação deve atingir as principais capitais do país e serve como ferramenta de pressão política para que o texto seja modificado ou retirado de pauta. Enquanto o governo e as plataformas buscam um consenso que garanta segurança jurídica ao modelo de negócios, os entregadores reafirmam que não aceitarão perdas na remuneração direta por cada serviço prestado.
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