Jornal da Band

Polícia do Rio faz operação contra 'máfia da farinha', mas ninguém é preso

Agentes da Draco cumpriram 14 mandados de busca e apreensão contra grupo que obrigava comerciantes a comprar alimentos de fornecedores ligados à milícia e ao tráfico

CLARA NERY

03/06/2026 • 20:32 • Atualizado em 03/06/2026 • 20:38

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou nesta quarta-feira (3) uma operação contra a quadrilha conhecida como "máfia da farinha", que obrigava comerciantes a comprar produtos apenas de fornecedores ligados ao grupo criminoso. Apesar da ação, ninguém foi preso.

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Os agentes da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) cumpriram 14 mandados de busca e apreensão em grandes depósitos e centrais de distribuição localizados nas Zonas Oeste e Norte da capital.

Segundo as investigações, os endereços eram utilizados pelo grupo suspeito de controlar ilegalmente a venda de farinha e de outros alimentos. Nos locais, os produtos foram encontrados armazenados em condições precárias, com mercadorias mofadas e fora do prazo de validade.

A operação teve origem na investigação sobre a chamada "taxa da farinha", esquema em que comerciantes eram obrigados a adquirir produtos de fornecedores vinculados à milícia e ao tráfico para manter as lojas em funcionamento. A cobrança foi denunciada pela Band com exclusividade.

A série de reportagens revelou que comerciantes que se recusavam a pagar a taxa chegaram a ser assassinados. Um dos casos foi o do padeiro Rafael Oliveira Braga, de 43 anos, morto em março de 2025. Já quem aceitava pagar recebia ordens sobre onde comprar, quanto comprar e quanto pagar pelos produtos — uma rotina marcada por medo, prejuízos financeiros e até pelo fechamento de estabelecimentos.

De acordo com a delegada Luciana Fonseca, a venda das mercadorias funcionava como estratégia para fortalecer o domínio territorial das facções. Com o avanço das apurações, a Polícia Civil concluiu que o esquema era ainda maior do que se imaginava: a exploração da venda de farinha e de outros alimentos integra uma estratégia mais ampla de domínio territorial de organizações criminosas em diversas regiões do estado.

Conforme a Draco, o grupo usava intimidação, coação e controle territorial para forçar os comerciantes a comprar mercadorias em quantidades superiores às suas necessidades e por valores acima dos praticados no mercado.

O esquema atingia diretamente pequenos e médios comerciantes, transformados em reféns da organização para manter os negócios abertos, especialmente na Baixada Fluminense e na Zona Oeste do Rio.

As investigações apontam ainda a existência de uma estrutura empresarial usada para dar aparência de legalidade às atividades ilícitas, viabilizando a distribuição das mercadorias e a movimentação financeira do esquema.

O objetivo da operação desta quarta-feira era apreender documentos, registros contábeis, aparelhos eletrônicos e outros elementos capazes de aprofundar o mapeamento da estrutura criminosa.

As diligências prosseguem para identificar todos os envolvidos, dimensionar a movimentação financeira do grupo e apurar possíveis conexões com outros crimes praticados pela organização.