O número de jovens que não estudam nem trabalham voltou a crescer no Brasil e já passa de seis milhões. A chamada geração nem-nem tem as mulheres como maioria, e a necessidade de ajudar nas tarefas de casa aparece entre os principais motivos que as afastam da escola e do emprego.
É o caso de Fabrícia Ágata Nascimento Scher, de 24 anos. Cuidando das mãos de outras mulheres, ela ganha um dinheiro de vez em quando como manicure. Parou de estudar no último ano do ensino médio para cuidar da filha recém-nascida e, em seis anos, revezou o tempo entre serviços de manicure e de cuidadora.
"Ruim, porque, registrado, não pode faltar. Como vou cuidar da minha filha?", diz. Ela sonha em ser enfermeira e resume o sentimento: "Me arrependo de não ter estudado".
Os dados são do Ministério do Trabalho. O número de jovens entre 14 e 24 anos que não estudam nem trabalham cresceu 12,7% no primeiro trimestre em relação aos últimos três meses do ano passado, chegando a 6,2 milhões de pessoas – o equivalente a 18,7% dessa faixa etária.
O levantamento mostra ainda que, embora a taxa de desemprego dessa população tenha caído pela metade desde o pico da pandemia, em 2021, ela ainda é o dobro da média geral.
Os números revelam um novo desafio. Se, algum tempo atrás, o problema do jovem era conseguir o primeiro emprego, agora o cenário mudou. Com o mercado aquecido, muitos trocam de trabalho em pouco tempo e não buscam qualificação. Quase 40% dos jovens mudam de emprego em menos de um ano — baixa qualificação, salário baixo e jornada longa explicam o ciclo.
Para o economista Hélio Zylberstajn, especialista em mercado de trabalho, o retrato desmonta a ideia de desinteresse da juventude. "70% são mulheres. Então o problema não é o 'nem-nem' que não se interessa. É a moça que precisa ajudar em casa, por diversas razões, a principal delas é a gravidez precoce. O problema é outro, não é um problema de desinteresse do jovem", afirma.
A trajetória se repete na história de Vitória Gomes, de 20 anos. Há três anos ela abandonou os estudos, quando estava quase no fim do segundo ano do ensino médio. Depois, trabalhou informalmente como atendente de restaurante, mas ficou apenas um mês. Hoje, luta para recuperar o tempo perdido.
"Eu vou recuperar e realizar meu sonho de ser farmacêutica", diz. "Não pode ficar sem estudar e trabalhar. Quero ter minhas coisas."
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