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Jurista vê delação de Vorcaro frágil e alerta para risco de acordo seletivo

Especialista aponta que contradições e negociação de valores enfraquecem proposta e caso Master pode seguir mesmo sem confissão do banqueiro

Da redação
DA REDAÇÃO

24/05/2026 • 18:30 • Atualizado em 24/05/2026 • 23:52

A tentativa de Daniel Vorcaro de fechar um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) enfrenta obstáculos crescentes. Ao elevar a proposta de devolução para R$ 60 bilhões aos cofres públicos, o ex-dono do Banco Master demonstrou, na avaliação do jurista André Marsiglia, não um gesto de boa-fé, mas uma estratégia de barganha que compromete a credibilidade da negociação.

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Para Marsiglia, o aumento da oferta financeira revela que Vorcaro reteve informações – e dinheiro – em etapas anteriores, o que reforça o padrão de omissões já registrado no processo. Segundo o jurista, o banqueiro foi apanhado em contradição pelo menos três vezes: negou conhecer o senador Ciro Nogueira, minimizou o papel do contrato da esposa do ministro Alexandre de Moraes e deixou sem explicação sua ligação com um filme apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — omissão que, de acordo com o especialista, não foi compartilhada com a Polícia Federal.

Diante das inconsistências, a PF já desistiu de negociar diretamente com o banqueiro. A PGR, no entanto, ainda mantém conversas abertas — postura que Marsiglia interpreta com desconfiança. "O receio é que a PGR esteja hesitante porque, por trás dela, existe o procurador Paulo Gonet, que tem se comportado de forma próxima a ministros do STF que poderiam ser alvos da delação", afirmou.

O jurista alerta que uma delação que poupe determinados nomes em troca de valores financeiros não serve ao interesse público. "A impunidade não pode ser trocada pela devolução de valores", disse, lembrando que, na Lava Jato, réus devolveram dinheiro ao Estado e, anos depois, receberam de volta parte dos recursos por decisões do próprio Supremo Tribunal Federal (STF).

Marsiglia também chama atenção para os riscos processuais das "idas e vindas" na negociação. A prisão do pai de Vorcaro e as pressões ao longo do processo podem ser usadas pela defesa para argumentar que a delação não foi voluntária, o que abriria caminho para eventual declaração de nulidade.

Há ainda uma dimensão estratégica. Com eleições em outubro, Copa do Mundo se aproximando e a composição da Segunda Turma do STF ainda incompleta, Marsiglia avalia que a defesa pode estar deliberadamente prolongando as negociações. "A delação sendo eternamente negociada pode ser uma aposta no esquecimento", disse o jurista, sugerindo que a estratégia visaria aguardar mudanças no cenário político e na composição do tribunal para tentar reverter o caso no futuro.

Quanto à relevância da delação para o conjunto das investigações, Marsiglia é direto: o caso Master não depende da confissão de Vorcaro para avançar. A PF já detém ao menos oito celulares do banqueiro e periciou parte do material. "O que a delação faz é dar match com as provas que já existem. Sem ela, faltam palavras para confirmar o que os celulares mostram. Sem os celulares, falta suporte material para o que ele diria", explicou.

O jurista defende que, se a delação não for abrangente o suficiente, ela deve ser rejeitada. "Para o bem do caso Master, a delação deve ser afastada se não entregar todo mundo que tem de ser entregue", concluiu Marsiglia, que vê no episódio um alerta sobre os limites dos acordos de colaboração quando usados como instrumento de negociação seletiva em vez de instrumento de justiça.

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