Seis dias após a megaoperação policial que paralisou o Complexo do Alemão e Penha, no Rio de Janeiro, a rotina tenta, a duras penas, voltar ao normal. Mas as marcas da violência permanecem vivas na memória e nas ruas da comunidade.
O fotógrafo Bruno Itan, morador e cronista visual das favelas cariocas, esteve no centro da ação por 24 horas e registrou imagens que expõem a brutalidade do confronto e a dor dos moradores.
Em entrevista à BandNews TV, Itan, que é autor do livro "Olhar Complexo" e finalista do prestigioso Prêmio Jabuti, compartilhou sua experiência e fez um desabafo sobre a realidade das comunidades.
Um relato em primeira pessoa: "O que não sai de mim é o cheiro"
Com a experiência de quem já cobriu outras grandes operações, como a invasão do Complexo do Alemão, Bruno Itan afirmou que a violência desta vez atingiu um nível sem precedentes.
"Eu já retratei muitas outras [operações], inclusive aquela do Jacarezinho que até então tinha sido a mais letal, mas eu acho que nunca vi nada igual a essa. A brutalidade de como foi essa operação... o que não sai de mim é o cheiro, o cheiro daqueles corpos", relatou o fotógrafo, visivelmente impactado.
Suas lentes capturaram o desespero de famílias ao reconhecerem os corpos de seus entes queridos, a destruição de carros e casas, e a tensão constante entre policiais fortemente armados e uma população encurralada pelo fogo cruzado.
Olhar complexo: A fotografia como alternativa ao fuzil
Morador da Rocinha e "cria" do Complexo do Alemão, Bruno Itan não se limita a registrar a violência. Seu objetivo principal é mostrar o outro lado da favela: a cultura, a resiliência e a humanidade que a mídia tradicional muitas vezes ignora.
"Eu tento sempre mostrar o lado bom e positivo desses locais, mostrar que ali dentro tem uma população do bem, uma população guerreira, que também é vítima dessa violência", destacou.
É com essa filosofia que ele toca o projeto social "Olhar Complexo", onde oferece aulas de fotografia gratuitas para crianças e jovens das comunidades. Para ele, a iniciativa é uma forma de apresentar um futuro diferente, longe do crime.
"Os jovens podem ver gente armada segurando fuzil, mas também estão me vendo segurando uma câmera", compara Itan, ressaltando a importância de oferecer exemplos positivos. "Eu poderia ser um daqueles mortos se não conhecesse a fotografia."
Uma crítica à política de segurança pública
O fotógrafo fez uma dura crítica à abordagem do poder público, que, segundo ele, enxerga as favelas apenas como um problema a ser combatido com força.
"Parece que [o poder público] só vê as comunidades, só vê a favela através da mira do fuzil, através do enfrentamento", lamentou.
Ele propõe uma mudança de estratégia: investir em oportunidades reais para a juventude. "Se a gente oferecesse cursos profissionalizantes pagos, igual o crime paga... A boca de fumo está oferecendo um dinheiro para os jovens. Por que o Estado não entra com projetos que também atraem os jovens, sendo remunerados?", questionou.
Mesmo com o reconhecimento nacional pelo seu trabalho, Bruno Itan revela que seu projeto sobrevive sem qualquer financiamento ou patrocínio, movido unicamente pela paixão.
"Faço por amor à fotografia", conclui. Seu trabalho é um poderoso lembrete de que, em meio ao caos, a arte e a educação continuam sendo as armas mais eficazes para construir um futuro de paz.
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