O que as canetas emagrecedoras têm a ver com Revolução Industrial, propriedade privada ou mesmo com guerra? Calma, eu não enlouqueci — pelo menos acho que não. É que a humanidade se transforma sempre que uma força muda a maneira como as pessoas vivem.
A Revolução Industrial foi uma dessas transformações: sociedade agrícola virando sociedade urbana. A propriedade privada estimulou o investimento e a criação de riquezas. A universalização do ensino acabou com a ideia de que educação era coisa de elite. Guerra e pandemia, infelizmente, existem e também reorganizam sociedades inteiras.
Outra força transformadora vem da ciência, na maior parte das vezes por meio de nova tecnologia. A revolução verde, por exemplo, multiplicou a produção de alimentos e afastou aquelas previsões do malthusianismo — você deve lembrar da escola, né?
Às vezes é um medicamento que muda tudo. A penicilina, da década de 1940. A pílula anticoncepcional, uma das maiores aliadas da emancipação feminina. Tem quem inclua nessa lista os antidepressivos modernos, porque mudaram o tratamento e também a compreensão do sofrimento mental.
E agora começam a surgir sinais de que as canetas emagrecedoras, olha só, podem entrar nesse grupo. Não porque as canetas façam as pessoas emagrecerem, mas pelo que acontece depois, com um número enorme de pessoas emagrecendo.
Porque quando uma pessoa perde peso, perde muito peso, muda a maneira de viver. Caminha mais, volta para a academia, faz planos, inclusive viagens, aceita convites que antes recusava, cuida mais da aparência, da vaidade, da saúde, da alimentação. Descobre prazer em atividades antes meio difíceis, perde interesse por hábitos que faziam mal. Muda prioridades.
Saiu um estudo da Universidade Cornell que mostrou o seguinte: nos primeiros meses do tratamento, já nos primeiros, os gastos com supermercado caem mais de 5%, chegando, em alguns casos, a mais de 8%. Também diminui a despesa com fast food e mudam os produtos que são colocados no carrinho. A consultoria McKinsey mostra os supermercados reorganizando as prateleiras para ampliar o espaço dos alimentos ricos em proteína, procurados pelas pessoas.
Aí, quando milhões de consumidores mudam o comportamento, mudam também as perspectivas de empresas inteiras. Alguns setores inteiros podem perder mercado, outros podem ganhar. E, quando muda a expectativa de lucro de setores, muda também a avaliação no mercado financeiro. Não é por acaso que o Morgan Stanley avalia que, se essa onda continuar, vai provocar uma disrupção em vários setores do consumo.
Claro, é cedo para afirmar que as canetas vão alcançar a dimensão histórica da penicilina ou dos anticoncepcionais. A história leva décadas para você poder confirmar uma transformação graúda. Mas já chama atenção um medicamento produzir efeitos que já ultrapassam o consultório, chegam ao supermercado, à indústria, ao mercado financeiro e ao comportamento de milhões de pessoas.
Será que a gente está assistindo ao nascimento de uma transformação capaz de mudar não apenas a vida dos pacientes, mas da própria sociedade? A gente vai acompanhar.


