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Brasil passará a ter a maior tarifa aplicada pelos EUA na América do Sul

Para especialistas, a maior economia da América Latina combina relevância comercial, proximidade com a China e divergências políticas com Trump, fatores que ajudam a explicar a nova tarifa

Larissa Maia, DW
LARISSA MAIA, DW

16/07/2026 • 17:19 • Atualizado em 16/07/2026 • 17:19

Lula e Trump em encontro na Malásia

Lula e Trump em encontro na Malásia

REUTERS/Evelyn Hockstein

O Brasil passará a ter a maior tarifa aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul a partir de 22 de julho, quando passam a valer as novas taxas impostas por Donald Trump nesta quarta-feira (15). O dado é do Global Trade Alert (GTA), iniciativa do St. Gallen Endowment, centro de estudos independente sediado na Suíça e que compila estatísticas de comércio global.

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Atualmente, o Brasil está empatado com o Uruguai, com tarifa efetiva média de 11,66%, atrás apenas do Paraguai, com 12,92%.

Quando o novo tarifaço passar a valer, a tarifa de importação do Brasil passará para 18,17%, segundo o GTA, enquanto seus vizinhos — pelo menos por enquanto — seguirão com taxas bem menores. Essa porcentagem calculada pelo GTA difere da alíquota de 25% anunciada por Trump porque considera o peso de cada produto na pauta exportadora e as exceções previstas nas novas regras.

Mas por que o Brasil se tornou um dos principais alvos da política tarifária americana na região? Segundo especialistas, a resposta cruza pelo menos quatro dimensões: política, econômica, estratégica e diplomática.

Desalinhamento ideológico

Para Carlos Pio, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior do Ministério da Economia e professor da Universidade de Brasília (UnB), a tarifa contra o Brasil reflete uma mudança mais ampla na doutrina comercial de Trump: da lógica de livre mercado para uma visão nacionalista, que prioriza proteger setores industriais afetados pela desindustrialização, além de favorecer alianças políticas em detrimento de protocolos diplomáticos tradicionais. "É uma ação política, mas não quer dizer que não seja uma ação que tenha propósito comercial", pondera.

Segundo ele, o Brasil se torna alvo preferencial não só pela economia relativamente fechada e resistente à liberalização, mas por um desalinhamento ideológico somado à proximidade pessoal que o governo Bolsonaro cultivou com Trump. "Não é nem com a Casa Branca nem com o governo americano. É com o Trump", resume.

Essa lógica, diz o professor, também aparece em outras frentes da direita global apoiadas inicialmente por Trump — como Marine Le Pen, na França, e as "expectativas frustradas com (Giorgia) Meloni", na Itália, depois que ela adotou posições mais liberais.

"Como a PF (Polícia Federal) e o Supremo (Tribunal Federal) foram em cima do Bolsonaro, reforça esse outro lado de: aos meus amigos, tudo."

A comparação com a Argentina de Javier Milei, segundo Pio, reforça o argumento. "A Argentina também é protecionista como o Brasil, mas Milei está em uma condição distinta do Lula em relação à política."

Proximidade com a China

Jan Marcel, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), acrescenta que o Brasil é a maior economia da América Latina e tem relevância comercial superior para os Estados Unidos do que os seus vizinhos, o que inclui produtos de maior valor agregado, como aeronaves, máquinas, petróleo, aço e produtos químicos.

Há ainda no tabuleiro a disputa entre Estados Unidos e China por influência global. Como o Brasil mantém relação econômica forte com a China e, ao mesmo tempo, segue como parceiro relevante dos EUA, "acaba ficando no centro dessa competição", diz Marcel, o que transforma a tarifa em instrumento de pressão sobre temas que vão muito além do comércio bilateral.

Instrumento de pressão política

Celso Figueiredo, advogado especialista em comércio internacional e professor de Relações Governamentais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que as tarifas comerciais de Trump deixaram de ser meras ferramentas econômicas para se tornarem instrumentos de pressão política e arrecadação fiscal, sob a doutrina America First: mais competitividade para produtos americanos, e mais receita para o governo também.

No caso brasileiro, porém, Figueiredo vê "componentes extras". "Quando a gente observa a nota publicada no começo de junho pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), e a decisão desta quarta-feira, o fundo técnico objetivo dessa decisão acaba sendo raso, o que leva a crer que, de fato, essa tomada de decisão tem um aspecto mais político", diz o advogado.

O especialista lembra que o atual patamar de taxação contra o Brasil estar acima dos pares da região também pode não ser definitivo.

Segundo ele, há, inclusive, uma investigação em curso contra 60 países (incluindo o Brasil), voltada a apurar se eles ganharam vantagem competitiva com ítens produzidos por meio dotrabalho forçado, o que demonstra, segundo o advogado, que o instrumento seguirá sendo usado para outras nações também.

Isso mostra, de acordo com o especialista, que os Estados Unidos monitoram de perto qualquer sinal que ameace a hegemonia do país, como também do dólar nas transações internacionais — como a ideia, discutida no âmbito do Brics, de uma moeda própria para o bloco de 11 países que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Uma escalada é provável?

Em nota divulgada após o anúncio dos EUA, o governo federal brasileiro classificou a data como "um marco lastimável" nas relações entre Brasil e Estados Unidos.

Para o executivo brasileiro, não há justificativa para medidas unilaterais contra o Brasil e que a balança comercial é favorável aos EUA.

Uma fonte da Casa Branca citada pelo jornal O Globo sinalizou que qualquer retaliação brasileira forçaria os Estados Unidos a "potencialmente modificar" sua ação para "garantir a eliminação dessas práticas". "Se eles optarem, provavelmente haverá mais ações do nosso lado”.

Ainda assim, um cenário de escalada não é o mais provável, na visão de Figueiredo. A Lei de Reciprocidade, sancionada no ano passado após o primeiro tarifaço, ficou "engavetada", já que as tarifas foram derrubadas. Para o advogado e professor da FGV, o mesmo padrão deve se repetir agora e a retaliação direta "não é o que está na mesa".

Ele lembra que a nova lista de exceções tarifárias, semelhante à do ano anterior, deve protegerboa parte das exportações brasileiras, o que reduz a pressão para uma resposta mais dura. A aposta segue sendo a negociação diplomática.

Autor: Larissa Maia