
Rebeliões simultâneas ocorreram em 74 presídios
Arquivo/Agência SP
No Dia das Mães de 2006, o estado de São Paulo viveu um dos capítulos mais sombrios de sua história recente. O que começou como uma reação do crime organizado a transferências prisionais transformou-se em uma onda de terror que sitiou a maior metrópole do país, deixando um rastro de centenas de mortos e uma cicatriz profunda na segurança pública brasileira.
O conflito teve início oficial na noite de 12 de maio de 2006, uma sexta-feira de véspera de Dia das Mães. O gatilho para a ofensiva foi a transferência de 765 detentos para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Venceslau, na região oeste de São Paulo. Entre os transferidos estava a cúpula da facção criminosa que agia dentro e fora dos presídios, entre eles Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.
A resposta do grupo foi imediata e coordenada em duas frentes. Dentro dos presídios, ocorreram 74 rebeliões simultâneas, a maior marca já registrada no sistema penitenciário do Brasil. Já nas ruas do estado, agentes de segurança foram alvo de emboscadas em bases policiais, postos de fiscalização e até em momentos de folga.
Nove dias de conflito crítico
Embora a insegurança tenha persistido por todo o mês de maio, o período de ataques mais intensos e rebeliões ativas durou cerca de 9 dias, encerrando-se oficialmente em 21 de maio.
O ápice do medo ocorreu na segunda-feira, 15 de maio. Naquele dia, um "toque de recolher" informal, alimentado por boatos e ataques reais, paralisou a capital paulista. Escolas e comércios fecharam as portas precocemente. O resultado foi um êxodo urbano repentino, gerando engarrafamentos recordes e deixando avenidas tradicionalmente lotadas, como a Paulista e a Marginal Tietê, completamente desertas antes do anoitecer.
Mais de 500 mortos
O custo humano dos ataques de 2006 é drástico e até hoje gera debates sobre a intensidade da resposta estatal. Os números oficiais e de organizações de direitos humanos consolidam um cenário de guerra:
Além dos óbitos, mais de 110 agentes de segurança ficaram feridos nos confrontos e emboscadas iniciais.
O impacto logístico serviu para demonstrar o poder de articulação da facção na época. Os ataques não visaram apenas pessoas, mas o funcionamento da cidade:
Transporte Público: Cerca de 150 ônibus foram incendiados em todo o estado, prejudicando a mobilidade de milhões de trabalhadores.
Segurança Pública: Mais de 80 unidades de segurança, entre delegacias e bases da PM, sofreram atentados a tiros ou bombas.
Passadas duas décadas, os "Ataques de Maio" permanecem como um marco de alerta sobre a crise no sistema carcerário e a vulnerabilidade da segurança urbana, sendo anualmente lembrados como um período de luto e reflexão para a sociedade paulista.

