
Torcedores da Noruega comemoram após a partida, com a classificação da equipe para as oitavas de final da Copa do Mundo. REUTERS/Issei Kato
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Resumo
A comemoração chamada remada viking em que torcedores noruegueses gritam “Ro” e simulam movimentos de remar, se tornou um fenômeno que ganhou repercussão internacional durante a Copa do Mundo, impulsionando recordes de buscas na internet a cada vitória da Noruega, especialmente após a atuação do capitão Martin Odegaard tocando tambor nas eliminatórias.
Origem revela que a remada viking foi criada pelo professor Ole Froystad, inspirado em hinos de outras torcidas e criada em Oslo, superando em popularidade outras comemorações como as palmas vikings da Islândia, tornando-se símbolo de união e força para a seleção norueguesa, com referências ao imaginário nórdico e à cultura pop.
Análise do pesquisador Johnni Langer esclarece que a imagem dos vikings, incluindo elementos como o elmo com chifres e a remada, é fruto de reconstruções culturais e não de tradições medievais, sendo apropriada pela torcida e pela seleção como espetáculo visual e sonoro, impulsionado por influências do heavy metal e estratégias de marketing contemporâneas.
Duas batidas no tambor e uma multidão grita “Ro” – palavra norueguesa para o verbo remar – enquanto fazem gestos simultâneos puxando os braços em paralelo ao peito, como se estivessem todos remando dentro de um barco gigante. Esse cântico visualmente e sonoramente impactante se chama viking row (remada viking) e ganhou a atenção do público nas transmissões dos jogos do mundial, nas redes sociais e não seria diferente nas buscas do Google.
Conforme dados do Google Trends, os termos associados à comemoração norueguesa disparam nas buscas a partir do início da Copa e batem recorde atrás de recorde de interesse a cada vitória da seleção nórdica.
O primeiro pico de buscas no Brasil ocorreu no dia 16 de junho, na estreia da seleção norueguesa, mas logo esse marco ficou pequeno comparado ao interesse gerado no dia (22) da vitória contra o Senegal. O interesse no entanto recuou diante da derrota contra a França por 4x1 no dia 26. O maior pico se deu quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela Noruega, por 2x0.

Buscas por remada viking no Google Gráfico: Sala Digital Band e Google Fonte: Google Trends
O maior índice de buscas foi registrado nas eliminatórias, no dia 30 de junho, durante a vitória de 2x1 contra a Costa do Marfim. Neste dia, o capitão da Noruega, Martin Odegaard, coordenou a remada viking tocando o tambor em campo, enquanto o time e a torcida norueguesa entoavam “Ro” e remavam em comemoração ao avanço da equipe para as oitavas de final.

De onde desatracou a remada viking?
A remada faz lembrar comemorações como o “viking claps” (palmas vikings) da Islândia, que ficou conhecido durante a Eurocopa de 2016 ou a tradicional Ola, que se popularizou a partir da Copa do Mundo de 1986 no México.
Ao comparar o interesse de buscas entre as palmas vikings dos islandeses em 2016 e a remada viking dos noruegueses em 2026, os dados mostram o dobro de interesse da remada em relação à comemoração islandesa.
O remada viking que vem encantando o mundo e já foi performada desde a quinta avenida até o parlamento norueguês, teve origem numa noite fria do inverno de Oslo, quando o professor da escola primária, Ole Froystad, colocou como meta pessoal emplacar um hino que engajasse a torcida.
“Eu queria que fosse curto. Eu queria que fosse fácil. Eu queria que fosse forte. Eu queria que fosse cultural e queria que tivesse um impacto massivo”, contou Froystad a ESPN australiana.
A ideia da remada foi a vencedora entre mais de dez ideias elaboradas pelo professor. Depois de se inspirar em vários hinos de outras torcidas, ele pode enfim testar no último amistoso da Noruega antes da estreia na Copa do Mundo. E foi um sucesso.
A construção do herói nórdico e o ritmo dos tambores
Apesar do sucesso e do sentimento de conexão com o passado, a performance que hoje encanta os estádios está muito mais próxima do imaginário pop do que da realidade medieval. Quem explica esse fenômeno é o pesquisador Johnni Langer, professor UFPB e pesquisador do NEVE (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos), que estuda como a imagem desses povos foi reconstruída ao longo dos séculos.
Para começo de conversa, a própria palavra "viking" não designava um povo ou uma identidade étnica unificada, mas sim uma atividade temporária. A palavra aparece em apenas cinco dentre as mais de três mil runas registradas na era viking.
Conforme esclarece o professor: "O que vai ser a essência da era viking são as atividades de pirataria. Viking não é um povo. Viking é você sair a viking, que é você empreender uma viagem de embarcação". Na realidade, a maior parte da população escandinava era composta por agricultores. A generalização que conhecemos hoje foi uma invenção romântica: "No século XIX, viking passa a ser sinônimo para todas as pessoas dessa sociedade passa a ser o sinônimo de escandinavo".
Essa engrenagem de mitificação ganhou força por meio de outra grande expressão cultural do século XIX: as óperas wagnerianas. Conforme revela o professor Langer, o icônico elmo com chifres – marca registrada dos torcedores nas arquibancadas – foi criado originalmente por um artista dinamarquês em 1842, mas acabou assimilado pelas monumentais encenações do compositor Richard Wagner na década de 1870. "A ópera wagneriana era o cinema na época, as óperas viajavam pelo mundo. E aí, essa imagem foi hiperpopularizada a partir de então".
Posteriormente, a cultura de massa norte-americana e as famosas tirinhas em quadrinhos (como Hagar, o Horrível, e sua esposa Helga) consolidaram esse estereótipo ao ponto de transformar tudo o que cerca esse universo em "viking" – do cachorro à cama.
Se por um lado existe a construção do viking como um herói nórdico que saiu para desbravar os mares ao leste da Escandinávia, por outro lado há quem faça uma associação de vikings como piratas violentos, bandidos e vilanescos. Sobre isso o professor é categórico:
"Nós sabemos, por exemplo, que no mundo viking havia escravidão, havia saques e pilhagens, havia mortes. Mas também havia questões de urbanização, pessoas que conviviam pacificamente. Então, para o historiador, o viking não é nem positivo, nem negativo, ele é os dois pra gente poder entender o viking numa época que era extremamente violenta. Ele não era mais violento que o inglês, ele era um produto de sua época”.
Onde atraca o drakkar norueguês?
Historicamente, o ato de remar não tinha qualquer caráter festivo, conta o historiador: "Não tem o sentido de comemoração, diversão, festa. Tudo isso é uma releitura contemporânea. Remar em uma embarcação viking tinha um sentido pura e simplesmente prático", como se locomover na ausência de vento ou realizar manobras rápidas no litoral.
Se a comemoração não veio dos navios medievais, a sua inspiração direta está na cultura pop contemporânea, mais especificamente no heavy metal. O professor aponta que bandas de viking metal, como a sueca Amon Amarth, já estimulavam essa exata dinâmica em suas apresentações: "Eles já faziam remadas nos shows deles. O cara que criou isso [na torcida] só seguiu essa tendência, porque daí reflete aquele espírito viking na era heroica".
Ao adotar o cântico e os gestos em campo, a seleção da Noruega se apropria de uma estética intencionalmente agressiva e intimidadora, ideal para o ambiente competitivo do futebol. Afinal, uma representação estritamente fiel à história — que envolveria trajes aristocráticos muito coloridos em vez de peles escuras e armaduras pesadas — não geraria o mesmo impacto comercial. A "remada viking" moderna é, portanto, o exemplo perfeito de como a cultura se reconstrói: uma necessidade prática do passado medieval que foi ressignificada como um poderoso espetáculo pop de união, marketing e força nas arquibancadas do presente. Agora resta saber se o drakkar da seleção de Haaland vai avançar ou naufragará diante da Seleção Brasileira.
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