
Oinegue: Repercussão do desfile sobre Lula no Carnaval do Rio de Janeiro
Reprodução/Band
O que fazer quando a bajulação política rastaquera, como a que a gente viu acontecer com Lula na Sapucaí, se esconde atrás de um debate nobre envolvendo liberdade de expressão, liberdade artística, como a justiça deve se portar.
Vamos viajar um pouco no tempo. Vamos complicar a discussão. 2006. Leandro de Itaquera, escola de samba de São Paulo, que desfilou no Grupo Especial do Carnaval paulista naquele ano, levando o tema para a avenida de 'As águas de um novo Tietê'.
E aí, por uma dessas incríveis coincidências, olha só, o governo de São Paulo comandado por Geraldo Alckmin tocava um projeto de despoluição do Rio Tietê. O rio que corta o estado, passa pela capital, deságua no Rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul. O rio era uma fedentina só. Continua imundo, numa situação um pouco melhor.
E a escola colocou sobre o carro alegórico o boneco de três principais caciques tucanos de São Paulo. Mário Covas, ex-governador falecido cinco anos antes, José Serra, que era prefeito da capital, e Geraldo Alckmin. Tucanos, como aliás o fundador da escola que tinha disputado a eleição para vereador pelo PSDB dois anos antes.
O PT entrou na justiça. Naquela época, pelo menos, entendia que isso era um caso de propaganda antecipada. Detalhe, não desprezível: Alckmin foi candidato a presidente pelo PSDB naquele ano, tentando destronar Lula, que buscava e conseguiu a reeleição.
Hoje eles estão de mãos dadas, mas isso é outra história. Naquela época a justiça não proibiu o desfile e depois ninguém foi punido. Nem a escola, nem o PSDB, nem Alckmin.
E a gente chega a 2024. Vinte anos depois, a cena se repetindo na Marquês de Sapucaí com a Acadêmicos de Niterói contando a história do presidente e candidato Lula numa versão ainda mais descarada. Porque não trata de um projeto de governo, como fez a Leandro, mas trata da vida inteira do cacique petista.
A exemplo do desfile de 2006, todas as escolas receberam dinheiro público. Nesse ano, dinheiro da Embratur, que é federal. E aí duas representações foram protocoladas na justiça para barrar o desfile do Rio. Não funcionou. O TSE entendeu que seria censura prévia e a Acadêmicos de Niterói entrou na avenida chegando a reproduzir número do partido, refrão com slogan antigo de Lula, enfim.
Apesar de rejeitar os pedidos liminares, os ministros do TSE fizeram um alerta: a homenagem a Lula poderia render problemas futuros. A ministra Cármen Lúcia, que preside o tribunal, disse que o cenário é de quem caminha sobre areia movediça.
E agora que o desfile aconteceu, qual vai ser a posição da justiça? Vai dar alguma punição, o que não aconteceu em 2006? Ou vai passar pano e abrir as portas para nos próximos carnavais outros políticos arranjarem homenagem semelhantes de norte a sul do Brasil? Qual é a solução para esse nó que transforma liberdade de expressão, liberdade artística, em escudo para bajulação descarada de um governante? Vai ser interessante acompanhar.
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