
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump durante discurso no Parlamento de Israel
Chip Somodevilla/Pool via REUTERS
O presidente Donald Trump sobrevoou a Praça dos Reféns em Tel Aviv, plena de euforia e de bandeiras, antes de pousar no aeroporto Ben Gurion, quando os primeiros sete reféns eram levados de Gaza para a base militar de Reim, no Neguev. Ganhou um beijo da filha Ivanka, que o esperava com o marido Jared Kushner e líderes israelenses ao longo do tapete vermelho. Dali ele foi na “Besta”, sua limusine oficial, para Jerusalém, pela rota 1, fechada para trânsito, menos de 30 minutos de viagem.
Feriado em Israel, festa de Simcha Torá (Alegria da Torá), a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés, no deserto do Sinai. Há dois anos, foi um dia de luto, com a invasão do Hamas ao sul de Israel, que deixou 1.200 mortos e provocou a guerra que está em cessar-fogo; e agora, um dia de júbilo.
A caminho de Israel, dentro do Air Force One, Trump disse o que se tornaria o seu mantra pelo resto da viagem: “A guerra acabou”. Um repórter lembrou-lhe que foi dito o mesmo sobre o Líbano, onde, no entanto, os ataques israelenses continuam, contra o Hezbollah. O general Amir Aviv, em Jerusalém, explicou pela TV Israel, que dividia a tela entre a liberação dos reféns e as homenagens a Trump, ao vivo: “A guerra acabou, mas a luta continua”.
Por estar na Terra Santa dos profetas bíblicos, o presidente Trump iniciou o seu discurso ao Parlamento israelense como se fosse mais um deles. “Hoje, os céus estão calmos, e os canhões, silenciosos, numa região que viverá em paz por toda a eternidade. Este é o fim de uma era de terror e morte... É o início de uma harmonia grandiosa e duradoura. Este é o amanhecer histórico de um novo Oriente Médio”.
Em seguida, Trump tornou-se o político de sempre: chamando Netanyahu pelo apelido, Bibi, pediu que ele se levantasse, e o cobriu de elogios — o “bravo patriota” que fez um “grande trabalho”. E agradeceu também “a todas as nações árabes que se uniram e pressionaram o Hamas a libertar os reféns”. E acrescentou: “Tivemos muita ajuda de pessoas que você não esperaria”. A seu enviado ao Oriente Médio, Steve Witkoff, agradeceu por ter impedido a “Terceira Guerra Mundial”. Para ele, “Israel venceu a guerra”. Dois deputados árabes levantaram um cartaz pedindo o reconhecimento da Palestina. E correram em direção ao pódio, interrompendo o discurso de Trump. Foram expulsos do plenário.
Numa recaída “bolsonarista”, Trump pediu ao presidente Herzog para perdoar o premiê Netanyahu, que está em julgamento por três acusações de corrupção, fraude e quebra de confiança. “Quem se importa com charutos e champanhe?”, ele perguntou, numa referência a presentes recebidos em troca de favores prestados. A reação foi mista: ouviram-se murmúrios e alguns aplausos.
O presidente do Parlamento, Amir Ohana, pediu aos líderes mundiais para indicar o presidente Trump ao Nobel da Paz do ano que vem. Mas um comentarista da TV, ao vivo, insinuou que a Medalha de Honra de Israel, concedida pelo presidente Yitzhak Herzog, era “mais importante”. Deveria estar brincando. Netanyahu o chamou de um dos maiores amigos que Israel já teve na Casa Branca. E ao contar o que aconteceu em 7 de outubro de 2023, assegurou: “Nós lembramos”. E falou ainda de um futuro de paz com vários países árabes, numa sequência dos Acordos de Abraão, que devem agora ser retomados.
“Você conseguiu algo milagroso, você trouxe a maior parte do mundo árabe ao processo de paz para pôr fim à guerra”, continuou Netanyahu. Na galeria do Parlamento, convidados usavam boné de beisebol com a inscrição “Presidente da Paz”, como a que ele usa para propagar o “America First”.
Antes dos discursos, houve uma reunião entre Trump, seu genro Jared Kushner e seu emissário ao Oriente Médio, Steve Witkoff, com Netanyahu e o chefe do Mossad, David Barnea. Foi feita uma ligação para o presidente egípcio Abdel Fatteh el-Sissi, que então convidou Netanyahu para a “Cúpula da Paz” com mais de 20 líderes árabes e europeus no oásis de Sharm el-Sheikh, no deserto do Sinai, na tarde desta segunda-feira. Ele era a ausência que chamava a atenção.
Israel libertou 1.968 prisioneiros de segurança em troca dos reféns recebidos. Mas impôs a condição de que não houvesse celebração, principalmente na Cisjordânia. Num dos ônibus para Gaza, porém, houve comemoração, e os agentes do serviço presidiário o invadiram, impuseram a “ordem”, sem notícia de feridos, e depois o liberaram para prosseguir viagem. Nas áreas em que as tropas israelenses se retiraram, apareceram uns dois mil homens do Hamas, uniformizados e armados, como não eram vistos há algum tempo.
Encontros emocionados, encharcados de lágrimas e euforia, dominaram a segunda-feira em Israel, Gaza e Cisjordânia. Dos 28 corpos de israelenses mortos, apenas quatro foram localizados e devolvidos. Trump planejava ir ao Hospital Sheba, em Tel Aviv, para visitar ex-reféns, mas não houve tempo, porque ele era esperado na “Cúpula da Paz” em Sharm el-Sheik, no Egito.
O jornal New York Times pergunta por que só agora, aos 738 dias de guerra, o cessar-fogo foi obtido, e está sendo respeitado. A guerra poderia ter acabado em março, quando a primeira trégua foi rompida por Israel, antes de entrar numa segunda de três fases, que resultaria na retirada de tropas israelenses para perto da fronteira entre os dois inimigos. Como está previsto agora.
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