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Você quer um médico que não sabe tratar um infarto?

Eduardo Oinegue comentou os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica

Por Redação
REDAÇÃO

20/01/2026 • 22:34 • Atualizado em 20/01/2026 • 22:34

Eduardo Oinegue
Você quer um médico que não sabe tratar um infarto?

Você quer um médico que não sabe tratar um infarto?

Reprodução/Band

Você quer ser atendido por um médico que não sabe quais são os sintomas de infarto? Erra o tratamento de asma? Não sabe ler um raio-X? Básico do básico. Conhecimento que qualquer médico deveria ter ao sair da faculdade, só que nem todos têm.

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O Conselho Regional de Medicina de São Paulo descobriu esse absurdo quando desenvolveu um exame excelente para ser obrigatório para os recém-formados. A ideia era muito boa: passou na prova, tem registro médico; não passou, não tem. Aí um sindicato que reúne as faculdades de medicina entrou na justiça, matou a obrigatoriedade do exame e ainda proibiu a divulgação das faculdades onde se formaram os médicos despreparados. Ou seja, transparência é que se dane, o despreparo é o nosso segredinho.

E aconteceu de novo agora. O Ministério da Educação preparou um estudo classificando as faculdades de medicina em notas de 1 a 5, onde 4 e 5 são notas boas, 1 e 2 lamentáveis. E não é que uma associação de faculdades entrou na justiça para impedir a divulgação? Só que desta vez quebrou a cara e o MEC soltou a lista, saiu ontem, e a sociedade ficou sabendo, para constrangimento de muitas instituições de ensino, que 30% das faculdades de medicina analisadas receberam notas 1 e 2.

É o Brasil repetindo na medicina o que já aprontou em outros cursos: odontologia, direito... quer entupir o mercado de profissionais baixando a régua. O Brasil tem quase um terço das faculdades de odontologia do mundo. A gente tem proporcionalmente mais do que o triplo de dentistas da Alemanha, quatro vezes mais do que nos Estados Unidos. E no direito, aí a gente foi mais longe. A gente já chegou a ter mais de 50% das faculdades do mundo.

E a medicina tá no mesmo caminho. Só a Índia tem mais faculdades de medicina. O dobro de faculdades para uma população quase sete vezes maior. Os Estados Unidos, onde a população é 60% maior que a nossa, lá eles se viram com menos da metade do número de faculdades de medicina do Brasil.

É desse exagero nacional que brota a baixa qualidade. Não dá para ter quase 400 faculdades de alto padrão, com hospital de bom nível, com corpo docente com mestrado, doutorado... e o resultado é esse desastre. Lá nos Estados Unidos leva de 8 a 12 anos para abrir uma escola. Chega a custar 1 bilhão de dólares. Tem que ter hospital, tem que ter tudo. Só então pode abrir a porta.

Aqui, o aluno é parte do teste, tudo no improviso. Mas é o tal negócio, né? Um presidente americano nunca vai poder dizer que abriu uma faculdade, porque as faculdades não são abertas pelo governo. Quem cuida disso é uma entidade formada pelas próprias faculdades e pelos médicos de acordo com a necessidade. O governo não se mete nisso.

Aqui é tudo eleitoral. Uma associação entre populismo e bom negócio, que cria bilionários do ensino, muitos deles sem compromisso. E a sociedade é que paga a conta, com médicos que não identificam os sintomas de infarto, erram a conduta para tratamento de asma e não sabem ler um raio-X.

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