Política

Ao NYT, Flávio nega ter tido ajuda para fugir do Brasil e contesta eleições

Senador brasileiro conta como teve ideia de deixar o país e diz que contestará pleito mesmo de longe

4 min

05/11/2026 15:12 • Atualizado há 2 horas

Ao NYT, Flávio nega ter tido ajuda para fugir do Brasil e contesta eleições

Flávio Bolsonaro discursa após resultados do segundo turno

Adriano Machado/Reuters

Em Miami, após uma rota clandestina de mais de 8.000 km pela América do Sul, Flávio Bolsonaro (PL) deu sua primeira entrevista desde que deixou o Brasil. Em reportagem do jornal The New York Times, publicada nesta quinta-feira (5), ele afirmou que arquitetou sozinho o plano de fuga do Brasil rumo aos Estados Unidos, após a derrota sofrida nas eleições presidenciais, que confirmaram vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

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Foi tudo eu. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo. Como cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo comigo. Pode ter havido torcida, mas nada mais. --Flávio Bolsonaro

Segundo o próprio jornal, a versão de Flávio contrasta com relatos de autoridades norte-americanas, que apontam a aeronave executiva que o transportou até à Florida como sendo viabilizada por um assessor da Casa Branca e a sua entrada nos Estados Unidos autorizada pessoalmente por Donald Trump. O trajeto incluiu escalas no Equador e na Argentina —onde chegou a ser recebido por um dos principais assessores do presidente argentino.

Detalhes do plano de fuga

Alvo de três inquéritos, incluindo investigações sobre corrupção e lavagem de dinheiro, Flávio afirmou ao jornal norte-americano que resolveu sair do Brasil na manhã seguinte ao segundo turno das eleições, quando foi notificado por autoridades judiciais para entregar os seus passaportes no prazo de 24 horas.

Flávio deixava o condomínio onde o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cumpre prisão domiciliária, quando recebeu o documento. Ele relatou à publicação a conversa de despedida com o pai: "Ele me olhou nos olhos e disse: 'Já sabe onde querem chegar com isto, não é?' Eu disse: 'Pai, já sei. E estou preparado, sei o que tenho de fazer'. Dei as costas e saí."

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Horas depois daquele encontro, Flávio chegou a publicar um vídeo em suas redes sociais garantindo que entregaria os documentos e declarando: "Nunca pensei em deixar o país". Pouco depois, desapareceu dos radares e desembarcou em território norte-americano 42 horas mais tarde.

Na entrevista, Flávio reiterou sua inocência, mas justificou a decisão de deixar o Brasil afirmando considerar inevitável sua condenação caso permanecesse no país —cenário agravado pela perda de foro privilegiado com o término do seu mandato de senador no início de 2027. "Eu já sei que o resultado final será a minha prisão", afirmou.

Discurso de fraude e 'derrota para o sistema'

Apesar de a Justiça Eleitoral brasileira ter certificado a vitória de Lula por uma margem de 4,4 milhões de votos e de missões de observação internacionais terem atestado a legalidade do pleito, Flávio voltou a contestar o resultado e classificou a derrota como "matematicamente impossível". Mas completou: "Sei que não vai dar em nada. Perdi para o sistema."

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Flávio também lançou suspeitas sobre a integridade das urnas eletrônicas e criticou a prorrogação do horário de votação no segundo turno, das 17h para as 19h --medida solicitada por ambas as campanhas devido a fortes chuvas e atrasos no transporte--, sugerindo, sem provas, que o mecanismo teria servido para injetar votos ilícitos para o adversário.

Ao ser confrontado sobre a falta de indícios que sustentem as suas teses, o senador limitou-se a declarar: "Tenho as minhas suspeitas. Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado."

Relação com Trump e planos no exterior

Flávio, a mulher e as duas filhas obtiveram autorização de permanência nos EUA por pelo menos um ano, com base num estatuto migratório concedido por razões humanitárias. O senador agradeceu publicamente a Trump pela acolhida e por não ter reconhecido explicitamente o resultado eleitoral brasileiro: "Ele não tomou partido, o que é a atitude correta", avaliou em entrevista ao NYT.

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O senador também desconversou sobre uma eventual articulação direta junto do governo Trump para novas medidas de pressão diplomática ou econômica contra o Brasil.

A partir do exterior, Flávio afirmou que pretende recorrer judicialmente do resultado e atuar em apoio a aliados no Congresso Nacional em pautas como a redução da maioridade penal e a anistia para seu pai e outros condenados pelos atos de 8 de janeiro.

Por fim, o parlamentar indicou que vê o exílio como uma etapa provisória e não descartou um regresso às urnas. "Vou precisar seguir a minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por agora. Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente."

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