A decisão dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode trazer mais benefícios do que malefícios para o Brasil, segundo o juiz criminal e professor de direito penal e segurança pública, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos.
Na avaliação de Lemos, o debate público brasileiro muitas vezes minimiza a gravidade do fenômeno, mas, na prática, as facções criminosas brasileiras já operam com métodos terroristas, transcendendo o simples tráfico de drogas e buscando o controle territorial armado, a intimidação coletiva e a imposição de regras paralelas através do medo.
Para o especialista, o maior trunfo do terrorismo moderno é convencer a sociedade de que ele não existe, operando sob sombras para manter o controle e o poder. “As facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, já ultrapassaram há muito tempo a fronteira do crime organizado comum”, afirmou Lemos em entrevista à BandNews TV.
Ele ressalta que essas organizações contam com estruturas altamente sofisticadas, financiamentos transnacionais e uma rede complexa que opera não apenas dentro do território nacional, mas em diversos países, atingindo diretamente o sistema financeiro global e a soberania do próprio Estado brasileiro.
O terrorismo não se define pela ideologia que proclama as ações desses grupos, mas pelo terror que ele produz efetivamente. --Carlos Eduardo Ribeiro Lemos
Impactos da decisão internacional
A reclassificação pelos EUA pode trazer desdobramentos significativos para a estratégia de combate ao crime organizado no Brasil. Na visão de Lemos, o principal ganho com a medida é o fortalecimento da cooperação internacional, permitindo um rastreamento financeiro mais eficaz e o bloqueio de ativos em escala global.
“Isso pode ser muito positivo para o Brasil”, declarou. O magistrado explica que os órgãos de inteligência internacionais, como a Interpol e o FBI, passam a atuar com maior rigor na cooperação. “O terrorismo moderno vive de financiamento. As classificações internacionais ampliam os mecanismos de congelamento de ativos e o combate global à lavagem de dinheiro das facções.”
O domínio sobre as comunidades
Lemos destacou que a população mais vulnerável é a principal vítima desse cenário. Ele observou que, em diversas comunidades, moradores estão sendo silenciados pelo medo e, na ausência de uma presença estatal efetiva e contínua, as facções consolidam seu domínio.
“Quanto mais tempo o Estado fica sem agir, mais crescem essas facções”, alertou. Para o especialista, o combate ao crime organizado exige uma inteligência integrada, coragem para nomear corretamente a gravidade do problema e uma resposta estatal à altura. Ele reforçou que a omissão diante do terror, que já ocorre há anos, não produz paz, mas apenas a expansão descontrolada desses grupos criminosos.
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