
Mercosul
Reprodução
Após quase três décadas de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul voltou a avançar e entrou em uma nova fase decisiva. As tratativas começaram ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, em um contexto internacional marcado pela valorização do livre comércio e pela consolidação de grandes blocos econômicos — um cenário bastante diferente do atual.
Nos últimos anos, a resistência europeia, especialmente de países com forte setor agrícola subsidiado, travou o avanço do acordo. França, Irlanda, Polônia e Itália lideravam a oposição, temendo a concorrência de produtos agropecuários do Mercosul, sobretudo do Brasil. Esse quadro começou a mudar recentemente, com a Itália revendo sua posição, o que permitiu a formação de maioria política dentro da União Europeia para destravar o processo.
A mudança no cenário global também pesou. A política protecionista dos Estados Unidos, intensificada com tarifas elevadas e tensões comerciais, fez a União Europeia buscar novos parceiros estratégicos. A Alemanha, principal defensora do acordo, vê no Mercosul uma alternativa para ampliar mercados consumidores de seus produtos industriais, em um momento de forte concorrência com a China e desaceleração da indústria europeia.
Do lado do Mercosul, o Brasil surge como principal beneficiário em termos de volume comercial, especialmente na exportação de commodities agrícolas. O acordo prevê maior abertura do mercado europeu para produtos sul-americanos, embora com salvaguardas ambientais e mecanismos de proteção aos agricultores europeus, o que limita parte do potencial de crescimento das exportações brasileiras.
Apesar do avanço político, o acordo ainda está longe de entrar em vigor. Ele precisa passar por diversas etapas formais, incluindo ratificação pelo Parlamento Europeu e, possivelmente, pelos parlamentos nacionais dos países-membros, dependendo da classificação jurídica do tratado. Nesse ponto, a França ainda é vista como um possível foco de resistência interna.
Especialistas avaliam que, no curto prazo, os ganhos econômicos diretos para o Brasil podem ser mais modestos do que se imaginava no início das negociações. Setores industriais brasileiros, como o automobilístico e o farmacêutico, tendem a enfrentar maior concorrência com produtos europeus. Em contrapartida, o acordo pode estimular investimentos, parcerias industriais e maior integração tecnológica entre os blocos.
Além do aspecto econômico, o tratado tem peso geopolítico. Em um mundo cada vez mais marcado por disputas entre grandes potências, a aproximação entre União Europeia e Mercosul é vista como uma estratégia de diversificação de alianças e redução de vulnerabilidades comerciais e políticas.
Mesmo com o avanço recente, o acordo ainda deve enfrentar debates intensos e novos capítulos antes de se tornar realidade no dia a dia de empresas e consumidores.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:


