
Trump e Xi Jinping
REUTERS/Kevin Lamarque
Em um cenário de tensões geopolíticas e disputas comerciais, o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na China esta semana é muito mais do que um aperto de mãos protocolar. Segundo o advogado e especialista em direito empresarial, Emanuel Pessoa, a viagem de Trump a Pequim sinaliza uma necessidade estratégica dos Estados Unidos, encapsulada na máxima das relações internacionais: "quem precisa que viaja".
Em análise, Pessoa detalhou os múltiplos fatores em jogo. O mais urgente, para os EUA, é o acesso a terras raras, minerais essenciais para a indústria de defesa. "Ele está em guerra com o Irã e os caças americanos voam em média com meia tonelada de terras raras. Os mísseis teleguiados, todos dependem de terras raras", explicou. Com os estoques de mísseis baixos devido ao apoio à Ucrânia, a dependência da China, maior produtora mundial, tornou-se crítica.
Nesse tabuleiro, o Brasil desempenhou um papel crucial. Segundo Pessoa, o recente encontro de Trump com o presidente Lula não foi por acaso. O objetivo era garantir que o governo brasileiro não interferisse na venda da mina de terras raras Serra Verde para uma empresa americana, assegurando um fornecimento por 15 anos e dando a Trump uma posição de menor dependência para negociar com Xi Jinping.
O Acordo e o Prejuízo para o Brasil
Dois pontos principais devem sair da reunião, segundo o analista. O primeiro é uma estabilização das tarifas comerciais, renovando um acordo temporário. O segundo, e mais preocupante para o Brasil, envolve o agronegócio. "Provavelmente vão chegar a um acordo que determine que a China vai ter que fazer uma compra de soja americana", projeta Pessoa. Ele explica que Trump precisa de uma vitória para seu eleitorado rural, que foi duramente afetado pelas guerras tarifárias anteriores.
Se isso se concretizar, "a soja brasileira pode ser a maior penalizada nesse acordo". Com os produtores rurais brasileiros já operando com margens apertadas, a retomada forçada das compras de soja americana pela China pode diminuir drasticamente as exportações do Brasil, que hoje exporta mais que o triplo do que os EUA para o mercado chinês.
"Quanto mais eles brigam, mais disputam o Brasil"
Paradoxalmente, Pessoa argumenta que um acordo amplo entre as duas superpotências não é ideal para o Brasil. "Quanto mais os Estados Unidos e a China brigam, mais eles disputam o Brasil, porque o Brasil hoje é o principal prêmio nessa disputa geopolítica", afirma. Essa rivalidade resulta em maiores concessões, investimentos e transferência de tecnologia para o país. Ele cita como exemplo a construção de um centro de computação quântica pela China em João Pessoa, em um modelo de cooperação tecnológica superior ao "turnkey" americano. Um armistício entre os gigantes, portanto, diminuiria a relevância estratégica e o poder de barganha do Brasil.
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