Rádio Bandeirantes Logo
Rádio Bandeirantes

Selic a 15%: gastos do governo e inflação travam queda de juros, diz economista

Para Fernando Agra, país usa 'remédio muito amargo' para um problema que não é só de demanda; Brasil tem a segunda maior taxa de juros real do mundo

Por Redação
REDAÇÃO

08/11/2025 • 14:39 • Atualizado em 08/11/2025 • 14:39

Dinheiro

Dinheiro

Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006, foi tema de análise no Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes. Em entrevista, o economista Fernando Agra, doutor em Economia pela Universidade Federal de Viçosa, explicou que a combinação de gastos públicos descontrolados e uma inflação de custos torna o cenário adverso para a redução dos juros no Brasil.

Compartilhar

Segundo o especialista, o país adota um "remédio muito amargo" para combater a alta de preços, que possui características estruturais e não apenas conjunturais. Com a Selic em 15% e a inflação acumulada (IPCA) em 5,17%, a taxa de juros real do Brasil chega a 9,35% ao ano, a segunda maior do mundo, atrás apenas da Turquia (9,74%).

"O objetivo de uma taxa de juros tão alta é controlar a inflação, mas ela atua sobre a inflação de demanda. Nós temos muito mais uma inflação de custos", avalia Agra. "Não vai ser o aumento da taxa de juros que vai baixar a conta de energia, o preço do combustível ou o preço do alimento", completou.

Para o economista, o Brasil utiliza há anos a política de juros como um mecanismo de curto prazo, quando o problema da inflação é estrutural. Ele destaca que a capacidade produtiva do país, o chamado "PIB potencial", é limitada. "Quando a economia esbarra perto do limite, há uma pressão de preços. Vem a taxa Selic, aumenta, aborta o crescimento, e a gente fica no chamado 'voo da galinha'", explica.

O papel do governo e a dívida trilionária

O jornalista Claudio Humberto ressaltou a contradição do governo, que critica publicamente a taxa Selic elevada, mas contribui para sua manutenção com gastos "absolutamente descontrolados". Segundo ele, o presidente Lula, que nomeou sete dos nove membros do Copom, não demonstra interesse em cortar despesas, o que pressiona a política monetária e gera incertezas.

Fernando Agra concorda que a questão fiscal é um dos principais entraves. "A gente tem um problema de gasto público muito alto que também contribui para a incerteza do futuro", afirmou.

O economista trouxe um dado alarmante sobre a dívida pública brasileira, que já atinge R$ 8,13 trilhões. Com a Selic no patamar atual, o custo anual apenas com o pagamento de juros dessa dívida é de aproximadamente R$ 1,22 trilhão. "É uma receita muito perigosa, que tem que ser paga com juros mais altos", alertou Agra.

Quem ganha com a Selic alta?

Durante o debate, Claudio Humberto questionou quem são os beneficiados por um cenário de juros tão elevados, que inibe investimentos produtivos e encarece o crédito. Ele mencionou a postura do governo, que critica os "rentistas" mas, ao mesmo tempo, oferece títulos do Tesouro Direto com rentabilidade "irresistível".

Fernando Agra foi direto na resposta: "Quem ganha com as taxas de juros altas é o sistema financeiro e os chamados rentistas". Ele explicou que, com juros elevados, o preço do dinheiro sobe, o crédito fica mais caro e o spread bancário — a diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que cobram nos empréstimos — aumenta.

O economista usou um exemplo prático para ilustrar como os juros altos desestimulam o empreendedorismo. "Por que um indivíduo que tem R$ 1 milhão vai abrir uma pizzaria, correr todo o risco, se ele pode aplicar esse valor na renda fixa e tirar mais de R$ 10 mil líquidos por mês?", questionou.

Resiliência do Emprego

Apesar do cenário econômico desafiador, a taxa de desemprego atingiu seu menor nível histórico no último trimestre, ficando em 5,6%, embora ainda haja 6 milhões de brasileiros desempregados. Questionado sobre essa resiliência, Agra explicou que a economia ainda se mantém aquecida.

"A economia vem de um período de aquecimento e de expectativa de geração de empregos, com feriados importantes para o comércio, como Dia dos Pais e Dia das Crianças, antes de entrar no mês de Black Friday e Natal", analisou.

No entanto, o economista projeta que essa tendência pode não se sustentar. "Talvez a gente venha a ver a reversão dessa questão do nível de emprego somente no início do ano que vem", concluiu.