Saúde

4 em cada 5 idosos com demência no Brasil não têm diagnóstico, diz estudo

Pesquisa identificou desigualdades regionais e sociais no reconhecimento da doença, com subdiagnóstico maior entre pessoas analfabetas e moradores de regiões mais pobres

Da redação
DA REDAÇÃO

22/05/2026 • 12:21 • Atualizado em 22/05/2026 • 12:21

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um estudo brasileiro revelou que a maioria dos idosos com demência no país nunca recebeu diagnóstico médico da condição. Segundo a pesquisa Inequities in Dementia Diagnosis: Evidence From the ELSI-Brazil Study, cerca de 83,1% dos brasileiros com 60 anos ou mais que apresentavam critérios para demência não tinham diagnóstico prévio, evidenciando falhas no reconhecimento da doença e desigualdades no acesso à saúde.

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O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com base nos dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil).

Foram analisados dados de 5.249 participantes com 60 anos ou mais, coletados entre 2015 e 2016. Desse total, 392 pessoas preencheram critérios para demência, definidos por testes cognitivos, comprometimento funcional e informações sobre diagnósticos prévios de Alzheimer.

Os resultados mostram que quatro em cada cinco idosos com sinais compatíveis com demência nunca haviam sido diagnosticados clinicamente.

Desigualdade regional agrava subdiagnóstico

O estudo identificou diferenças marcantes entre regiões do país. Nas regiões consideradas economicamente mais pobres, a taxa de subdiagnóstico chegou a 90,2%, enquanto nas regiões mais ricas ficou em 76%.

A escolaridade também apareceu como um dos principais fatores associados ao acesso ao diagnóstico. Entre idosos analfabetos, o índice de casos não diagnosticados alcançou 93,9%, sugerindo impacto direto das desigualdades educacionais sobre a identificação da doença.

Segundo os pesquisadores, fatores individuais e estruturais influenciam a chance de receber um diagnóstico. Idosos mais velhos, com maior escolaridade, mais doenças crônicas associadas e melhor desempenho de memória apresentaram menor probabilidade de permanecer sem diagnóstico.

Por outro lado, morar sozinho aumentou significativamente o risco de subdiagnóstico. De acordo com a análise estatística, idosos que vivem sozinhos tiveram probabilidade cerca de 3,6 vezes maior de não receber identificação da doença.

Impactos para o sistema de saúde

A demência é uma síndrome caracterizada pela deterioração progressiva das funções cognitivas, afetando memória, raciocínio, linguagem e autonomia. O diagnóstico precoce é considerado essencial para retardar perdas funcionais, planejar cuidados e melhorar a qualidade de vida dos pacientes e familiares.

Os autores alertam que os resultados evidenciam desafios para o sistema público de saúde e defendem o fortalecimento de estratégias de detecção precoce no país.

Entre as medidas sugeridas estão a ampliação do treinamento de profissionais de saúde, maior atenção à população idosa em áreas vulneráveis e a criação de políticas adaptadas às diferenças regionais brasileiras.

“O reconhecimento da demência no Brasil é influenciado tanto por características individuais quanto por desigualdades estruturais entre regiões”, apontam os pesquisadores no estudo.

Publicado no International Journal of Geriatric Psychiatry, o trabalho conclui que reduzir o subdiagnóstico pode ser um passo importante diante do envelhecimento acelerado da população brasileira.

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