
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Um estudo brasileiro revelou que a maioria dos idosos com demência no país nunca recebeu diagnóstico médico da condição. Segundo a pesquisa Inequities in Dementia Diagnosis: Evidence From the ELSI-Brazil Study, cerca de 83,1% dos brasileiros com 60 anos ou mais que apresentavam critérios para demência não tinham diagnóstico prévio, evidenciando falhas no reconhecimento da doença e desigualdades no acesso à saúde.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com base nos dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil).
Foram analisados dados de 5.249 participantes com 60 anos ou mais, coletados entre 2015 e 2016. Desse total, 392 pessoas preencheram critérios para demência, definidos por testes cognitivos, comprometimento funcional e informações sobre diagnósticos prévios de Alzheimer.
Os resultados mostram que quatro em cada cinco idosos com sinais compatíveis com demência nunca haviam sido diagnosticados clinicamente.
Desigualdade regional agrava subdiagnóstico
O estudo identificou diferenças marcantes entre regiões do país. Nas regiões consideradas economicamente mais pobres, a taxa de subdiagnóstico chegou a 90,2%, enquanto nas regiões mais ricas ficou em 76%.
A escolaridade também apareceu como um dos principais fatores associados ao acesso ao diagnóstico. Entre idosos analfabetos, o índice de casos não diagnosticados alcançou 93,9%, sugerindo impacto direto das desigualdades educacionais sobre a identificação da doença.
Segundo os pesquisadores, fatores individuais e estruturais influenciam a chance de receber um diagnóstico. Idosos mais velhos, com maior escolaridade, mais doenças crônicas associadas e melhor desempenho de memória apresentaram menor probabilidade de permanecer sem diagnóstico.
Por outro lado, morar sozinho aumentou significativamente o risco de subdiagnóstico. De acordo com a análise estatística, idosos que vivem sozinhos tiveram probabilidade cerca de 3,6 vezes maior de não receber identificação da doença.
Impactos para o sistema de saúde
A demência é uma síndrome caracterizada pela deterioração progressiva das funções cognitivas, afetando memória, raciocínio, linguagem e autonomia. O diagnóstico precoce é considerado essencial para retardar perdas funcionais, planejar cuidados e melhorar a qualidade de vida dos pacientes e familiares.
Os autores alertam que os resultados evidenciam desafios para o sistema público de saúde e defendem o fortalecimento de estratégias de detecção precoce no país.
Entre as medidas sugeridas estão a ampliação do treinamento de profissionais de saúde, maior atenção à população idosa em áreas vulneráveis e a criação de políticas adaptadas às diferenças regionais brasileiras.
“O reconhecimento da demência no Brasil é influenciado tanto por características individuais quanto por desigualdades estruturais entre regiões”, apontam os pesquisadores no estudo.
Publicado no International Journal of Geriatric Psychiatry, o trabalho conclui que reduzir o subdiagnóstico pode ser um passo importante diante do envelhecimento acelerado da população brasileira.

