Saúde

Estudos comprovam que saúde do intestino impacta diretamente saúde mental

Neurologista explica como a microbiota regula neurotransmissores essenciais e como a alimentação auxilia no tratamento da depressão

Guilherme Machado
GUILHERME MACHADO

02/07/2026 • 08:44 • Atualizado em 02/07/2026 • 08:44

Intestino pode afetar saúde mental

Intestino pode afetar saúde mental

Unsplash

Estudos científicos robustos comprovam que o funcionamento do intestino possui um impacto direto na saúde mental humana. A conexão entre o sistema digestivo e o cérebro estabelece mecanismos biológicos que influenciam quadros de depressão, ansiedade e o bem-estar geral, transformando a alimentação em um pilar complementar aos tratamentos psiquiátricos tradicionais.

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O neurologista, neurocirurgião e especialista em longevidade Paulo Porto de Melo aponta em entrevista ao Band.com.br duas pesquisas fundamentais que trazem evidências dessa ligação em seres humanos. A primeira delas é um estudo populacional publicado na revista Nature Microbiology, em 2019, liderado pelo grupo do pesquisador Jeroen Raes na Bélgica.

Ao analisar mais de mil pessoas, a comunidade científica descobriu que duas bactérias específicas, chamadas Coprococcus e Dialister, aparecem de forma consistentemente reduzida em indivíduos diagnosticados com depressão. O especialista detalha que o estudo demonstrou que as "bactérias produtoras de butirato, como Faecalibacterium e Coprococcus, apareciam mais nas pessoas com melhor qualidade de vida".

A segunda evidência destacada é o ensaio clínico randomizado SMILES, publicado na revista BMC Medicine, em 2017, sob a liderança de Felice Jacka. Esse trabalho consistiu no primeiro teste clínico desenhado especificamente para avaliar os impactos da mudança alimentar nos sintomas depressivos.

Durante o experimento, pacientes com depressão de nível moderado a grave adotaram uma dieta mediterrânea modificada e apresentaram uma taxa de melhora significativamente superior em comparação ao grupo de controle, que recebeu apenas apoio social.

As três vias de comunicação do eixo intestino-cérebro

A conexão entre os dois órgãos ocorre por meio do chamado "eixo intestino-cérebro", que opera como uma via de mão dupla utilizando três estradas principais. A primeira dessas vias é estrutural e envolve o nervo vago, descrito pelo médico como "uma espécie de cabo de fibra óptica que liga diretamente o intestino ao tronco cerebral e transmite sinais nos dois sentidos".

A segunda via de comunicação possui natureza química e envolve a produção e regulação de neurotransmissores pela microbiota intestinal. Paulo Porto de Melo esclarece um dado biológico que frequentemente surpreende os pacientes: "a maior parte da serotonina do corpo, aquela ligada ao bem-estar, é produzida no intestino, não no cérebro".

Além disso, os microrganismos intestinais fabricam o GABA, substância que atua como um freio natural contra os sintomas da ansiedade, e ácidos graxos de cadeia curta, a exemplo do butirato, reconhecido por sua potente ação anti-inflamatória.

A terceira rota de ligação se dá por meio do sistema imunológico. Diante de um desequilíbrio na flora intestinal ou de um enfraquecimento da barreira do intestino, o organismo desenvolve uma condição de inflamação de baixo grau crônica. Esse processo inflamatório se desloca pela corrente sanguínea e passa a afetar diretamente o tecido cerebral. A comunidade médica correlaciona fortemente essa condição com os distúrbios psíquicos, uma vez que quadros depressivos e ansiosos apresentam um forte componente inflamatório de base.

O impacto prático da alimentação na microbiota e na mente

A reestruturação dos hábitos diários e do padrão alimentar serve como estratégia para fazer com que a microbiota passe a emitir os sinais químicos corretos para o cérebro. Para alcançar esse objetivo, a recomendação médica envolve priorizar o consumo de fibras e de alimentos fermentados — como iogurte natural, kefir, kombucha e chucrute —, que servem de alimento para as bactérias benéficas e elevam os níveis de butirato no corpo.

Paralelamente, torna-se necessário reduzir a ingestão de produtos ultraprocessados, açúcar refinado e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, fatores que empobrecem de forma severa a flora intestinal. O controle do estresse crônico e a regulação do sono também desempenham papel biológico direto na preservação desses microrganismos.

O uso de probióticos específicos, conhecidos na literatura científica como "psicobióticos", demonstra resultados promissores, porém exige critério médico estrito. O especialista alerta que "ainda não é caso de sair tomando cápsula por conta própria esperando milagre".

A alimentação funciona como a matéria-prima essencial para as funções cerebrais. Dietas de padrão mediterrâneo — compostas por vegetais, frutas, azeite de oliva, peixes, castanhas e grãos integrais — garantem o fornecimento dos nutrientes que o cérebro demanda para sintetizar neurotransmissores. O modelo alimentar inverso, baseado em ultraprocessados, induz o corpo ao estado inflamatório associado ao agravamento de patologias mentais.

O neurologista reforça que as intervenções dietéticas e os cuidados com o trato digestivo atuam como terapias de suporte e "nada disso substitui tratamento psiquiátrico ou psicológico quando ele é necessário".

A principal vantagem das descobertas do estudo SMILES reside no fato de que melhorar a qualidade do que se come não acarreta efeitos colaterais adversos, apresenta viabilidade financeira e pode ser conduzido de maneira simultânea às abordagens terapêuticas convencionais. O prato de comida se consolida como uma intervenção de benefício mútuo, consolidando a premissa de que cuidar do intestino significa, fundamentalmente, cuidar da mente humana.

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