
Eventos extremos provocados por mudanças climáticas afetam a saúde mental
Reprodução/Agência Brasil
O cenário do mercado de trabalho brasileiro enfrenta um desafio que vai além das planilhas de produtividade e das metas trimestrais. No ano passado, o Brasil atingiu a marca alarmante de 540 mil afastamentos previdenciários motivados por transtornos mentais e comportamentais. Diante desse quadro, a campanha Abril Verde 2026 traz um alerta urgente: como o desequilíbrio do planeta está adoecendo quem trabalha?
Com o mote “Clima equilibrado. Trabalho protegido. Mente saudável”, o Ministério Público do Trabalho (MPT) foca este ano na relação entre os eventos climáticos extremos e o colapso emocional no ambiente laboral.
Não se trata apenas de suportar o calor ou a chuva. Eventos como enchentes, queimadas e deslizamentos criam um ambiente de insegurança constante. Para o trabalhador, o impacto é duplo: o risco físico imediato e a sobrecarga emocional de operar em condições adversas.
De acordo com o MPT, essa exposição intensifica quadros graves, como:
Ansiedade crônica: Gerada pela incerteza e insegurança habitacional ou de deslocamento.
Síndrome de Burnout: Agravada pela pressão de manter resultados em cenários de crise ambiental.
Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Comum em profissionais que atuam na linha de frente de desastres ou que perdem bens e familiares enquanto precisam manter o vínculo empregatício.
A pressão em setores vulneráveis
O vice-coordenador nacional adjunto da Codemat, André Pessoa, destaca que as ondas de calor, por exemplo, não afetam apenas o corpo. Profissionais da limpeza urbana e da construção civil enfrentam um estresse térmico que, somado à pressão por produtividade, resulta em exaustão mental profunda. "Mudanças climáticas ampliam a insegurança e a instabilidade. Eventos climáticos devem integrar a análise de riscos também por seus impactos na organização do trabalho", afirma Pessoa.
Em 2025, o MPT registrou 1.017 denúncias diretas sobre saúde mental no trabalho. O ranking de reclamações por estado revela onde a pressão é mais crítica:
As queixas envolvem desde metas inalcançáveis até ambientes baseados no medo, fatores que ganham contornos ainda mais dramáticos quando o trabalhador já está fragilizado por desastres ambientais.
Prevenção: o caminho é a escuta
Para Raymundo Ribeiro, coordenador nacional da Codemat/MPT, a solução exige uma reorganização humana do trabalho. O foco deve ser a escuta ativa e a criação de jornadas sustentáveis, respeitando os limites legais e as vulnerabilidades individuais.
A vice-coordenadora Gisela Nabuco reforça a necessidade de participação: "É fundamental ouvir quem trabalha. O trabalhador deve participar ativamente do levantamento dos fatores psicossociais e do monitoramento das medidas de prevenção".
Por que Abril Verde?
A campanha não escolheu o mês ao acaso. Abril concentra duas datas fundamentais para a saúde global:
7 de abril: Dia Mundial da Saúde (criação da OMS em 1948).
28 de abril: Dia Mundial de Segurança e Saúde do Trabalho (instituído pela OIT em memória às vítimas de acidentes laborais).
Durante todo o mês, sedes do MPT em todo o país serão iluminadas de verde, e audiências públicas serão realizadas para discutir como garantir um meio ambiente de trabalho que seja, ao mesmo tempo, seguro para o corpo e acolhedor para a mente.

