Calor extremo ameaça produção global de alimentos e produtividade agrícola
Relatório da ONU alerta que temperaturas acima de 30°C reduzem colheitas e elevam mortalidade de rebanhos, afetando a segurança alimentar

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Meteorológica Mundial (WMO) divulgaram, nesta quarta-feira (23), um relatório alarmante sobre o impacto do clima no setor produtivo de alimentos. Segundo as duas instituições, as ondas de calor extremo, cada vez mais frequentes e intensas, estão definindo novas e perigosas condições para o agronegócio global, funcionando como um multiplicador de fragilidades na agricultura e na pecuária.
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“O calor extremo está, cada vez mais, definindo as condições nas quais o agronegócio opera. Mais do que um risco climático isolado, ele funciona como um fator que amplia as vulnerabilidades existentes”, afirmou Celeste Saulo, secretária-geral da WMO. O estudo destaca que o fenômeno não afeta apenas o desenvolvimento das plantas, mas compromete toda a cadeia logística e a saúde dos trabalhadores rurais.
Impacto direto nas lavouras e na pecuária
De acordo com o documento, a produtividade da maioria das culturas agrícolas sofre quedas acentuadas quando os termômetros ultrapassam os 30°C. Nessa temperatura, ocorre o enfraquecimento das células vegetais, o que prejudica a distribuição de energia na planta e compromete a formação dos grãos e frutos. O calor excessivo acelera o ciclo da planta de forma desordenada, resultando em colheitas menores e de qualidade inferior.
Na pecuária, o cenário é igualmente crítico. O estresse térmico — condição em que o animal não consegue dissipar o calor corporal — pode elevar a mortalidade de bovinos em até 24% em episódios de calor extremo. Na produção leiteira, o impacto já é mensurável em escala global: o relatório aponta que as altas temperaturas são responsáveis pela perda de 1% da produção mundial de leite, além de degradar as propriedades nutricionais do produto final.
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Estresse hídrico e os riscos para o trabalhador rural
Além dos danos biológicos diretos, a FAO e a WMO alertam para os efeitos indiretos que desestruturam o setor. O calor extremo acelera o chamado estresse hídrico — quando a demanda por água é maior do que a disponibilidade no solo ou nas reservas — e causa as "secas repentinas". Esse fenômeno ocorre devido à rápida evaporação da umidade nas camadas superficiais do solo, deixando as raízes sem sustentação hídrica em poucos dias.
Um exemplo citado pelas organizações foi a safra 2023/24 no Brasil. No período, o país enfrentou temperaturas até 7°C acima da média histórica, o que resultou em uma quebra de produtividade de 20% em diversas regiões produtoras. O evento ilustra como o clima extremo pode anular investimentos em tecnologia e manejo realizados pelos produtores brasileiros.
Perigo para quem produz
O relatório dedica um capítulo à segurança do trabalhador rural. Em regiões como o sul da Ásia, África Subsaariana e partes das Américas do Sul e Central, o número de dias por ano considerados perigosos para o trabalho ao ar livre pode chegar a 250.
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Essa restrição na jornada de trabalho reduz a eficiência operacional no campo, especialmente em colheitas manuais ou atividades que exigem exposição prolongada ao sol. A ONU reforça a necessidade de adaptação urgente das infraestruturas rurais e a implementação de sistemas de alerta precoce para mitigar as perdas econômicas e humanas no setor que sustenta a segurança alimentar do planeta.
