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Resultados preliminares de um estudo sobre a cadeia produtiva de alimentos de origem animal apontam que sistemas livres de antibióticos podem apresentar menor presença de Salmonela, embora a resistência bacteriana siga como desafio. Os dados foram apresentados pelo médico veterinário e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Fábio Sossai Possebon, durante palestra nesta terça-feira (14), da Korin Bio, em São Paulo, em meio a um debate sobre agricultura natural.
A palestra integrou um encontro que reuniu especialistas, pesquisadores e representantes do setor produtivo para discutir os desafios e caminhos da produção sustentável de alimentos.
Salmonela é menor em sistemas sem antibióticos
Um dos principais pontos apresentados foi a diferença na ocorrência de Salmonela entre sistemas convencionais e modelos livres de antibióticos.
De acordo com os dados mostrados pelo pesquisador, a bactéria foi identificada em:
- 18,2% das amostras no sistema convencional (26 em 143)
- 3,5% no sistema livre de antibióticos (5 em 141)

Ao longo da cadeia produtiva, a diferença também se manteve. No produto final, por exemplo, a positividade chegou a cerca de 15,6% no modelo convencional, contra 0,62% no sistema sem antibióticos.
“Isso nos chamou muito a atenção. A positividade no sistema livre de antibióticos foi muito baixa”, afirmou Possebon.
Segundo ele, o resultado contraria uma percepção comum de que a redução do uso de antibióticos poderia aumentar a presença de patógenos.
Apesar da menor presença da bactéria, o pesquisador ressaltou que a resistência aos antimicrobianos continua sendo um problema relevante — independentemente do modelo produtivo.
“Mesmo quando a gente não usa antibiótico, os microrganismos resistentes continuam presentes”, explicou.
Os testes indicaram que bactérias como Escherichia coli e Enterococcus apresentam níveis de resistência em ambos os sistemas, embora com variações.
Produção animal no centro do debate global
Durante a palestra, Possebon também contextualizou o problema em escala global. Segundo ele, a resistência antimicrobiana pode causar até 39 milhões de mortes até 2050, consolidando-se como uma das principais ameaças à saúde pública.
Nesse cenário, a produção animal tem papel central, já que concentra grande parte do uso de antibióticos — seja para tratamento de doenças, prevenção ou aumento de produtividade.
“Onde a gente produz muito alimento, a gente também tem maior chance de desenvolver resistência”, disse.

Estudo acompanha toda a cadeia produtiva
A pesquisa apresentada pela equipe da UNESP acompanhou diferentes etapas da produção de frangos, desde o ambiente antes da chegada das aves até o processamento final.
Foram analisadas mais de 2 mil amostras microbiológicas, além de estudos genéticos por metagenômica, técnica que permite identificar genes de resistência em larga escala.
Os resultados indicam que o sistema convencional tende a apresentar maior intensidade de genes de resistência, enquanto o modelo livre de antibióticos mostra menor pressão seletiva.
Outro ponto destacado foi o papel do abate e do processamento industrial na disseminação de microrganismos.
Segundo o pesquisador, a contaminação cruzada pode ocorrer no frigorífico, especialmente quando diferentes sistemas produtivos compartilham o mesmo ambiente.
“A microbiota do frigorífico é influenciada pelos animais que chegam para o abate”, explicou.
Caminho passa por boas práticas e informação
Ao encerrar a apresentação, Possebon afirmou que a solução para o problema não é simples e envolve diferentes frentes, como melhoria das práticas produtivas, uso racional de antibióticos e maior controle sanitário.
Ele também fez um alerta sobre o consumo de alimentos sem inspeção.
“Todo alimento de origem animal precisa ser inspecionado. O clandestino não é necessariamente mais saudável”, disse.
Para o pesquisador, o avanço no enfrentamento da resistência antimicrobiana depende da atuação conjunta entre ciência, setor produtivo e consumidores.
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