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Menor uso de antibióticos reduz presença de salmonela, diz estudo da UNESP

Pesquisa apresentada na Korin Bio mostra queda da bactéria em sistemas sem antibióticos, mas alerta para resistência persistente

GABRIELLE PEDRO

14/04/2026 • 17:01 • Atualizado em 14/04/2026 • 17:01

Freepik

Resultados preliminares de um estudo sobre a cadeia produtiva de alimentos de origem animal apontam que sistemas livres de antibióticos podem apresentar menor presença de Salmonela, embora a resistência bacteriana siga como desafio. Os dados foram apresentados pelo médico veterinário e pesquisador da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Fábio Sossai Possebon, durante palestra nesta terça-feira (14), da Korin Bio, em São Paulo, em meio a um debate sobre agricultura natural.

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A palestra integrou um encontro que reuniu especialistas, pesquisadores e representantes do setor produtivo para discutir os desafios e caminhos da produção sustentável de alimentos.

Salmonela é menor em sistemas sem antibióticos

Um dos principais pontos apresentados foi a diferença na ocorrência de Salmonela entre sistemas convencionais e modelos livres de antibióticos.

De acordo com os dados mostrados pelo pesquisador, a bactéria foi identificada em:

  • 18,2% das amostras no sistema convencional (26 em 143)
  • 3,5% no sistema livre de antibióticos (5 em 141)

Ao longo da cadeia produtiva, a diferença também se manteve. No produto final, por exemplo, a positividade chegou a cerca de 15,6% no modelo convencional, contra 0,62% no sistema sem antibióticos.

“Isso nos chamou muito a atenção. A positividade no sistema livre de antibióticos foi muito baixa”, afirmou Possebon.

Segundo ele, o resultado contraria uma percepção comum de que a redução do uso de antibióticos poderia aumentar a presença de patógenos.

Apesar da menor presença da bactéria, o pesquisador ressaltou que a resistência aos antimicrobianos continua sendo um problema relevante — independentemente do modelo produtivo.

“Mesmo quando a gente não usa antibiótico, os microrganismos resistentes continuam presentes”, explicou.

Os testes indicaram que bactérias como Escherichia coli e Enterococcus apresentam níveis de resistência em ambos os sistemas, embora com variações.

Produção animal no centro do debate global

Durante a palestra, Possebon também contextualizou o problema em escala global. Segundo ele, a resistência antimicrobiana pode causar até 39 milhões de mortes até 2050, consolidando-se como uma das principais ameaças à saúde pública.

Nesse cenário, a produção animal tem papel central, já que concentra grande parte do uso de antibióticos — seja para tratamento de doenças, prevenção ou aumento de produtividade.

“Onde a gente produz muito alimento, a gente também tem maior chance de desenvolver resistência”, disse.

Estudo acompanha toda a cadeia produtiva

A pesquisa apresentada pela equipe da UNESP acompanhou diferentes etapas da produção de frangos, desde o ambiente antes da chegada das aves até o processamento final.

Foram analisadas mais de 2 mil amostras microbiológicas, além de estudos genéticos por metagenômica, técnica que permite identificar genes de resistência em larga escala.

Os resultados indicam que o sistema convencional tende a apresentar maior intensidade de genes de resistência, enquanto o modelo livre de antibióticos mostra menor pressão seletiva.

Outro ponto destacado foi o papel do abate e do processamento industrial na disseminação de microrganismos.

Segundo o pesquisador, a contaminação cruzada pode ocorrer no frigorífico, especialmente quando diferentes sistemas produtivos compartilham o mesmo ambiente.

“A microbiota do frigorífico é influenciada pelos animais que chegam para o abate”, explicou.

Caminho passa por boas práticas e informação

Ao encerrar a apresentação, Possebon afirmou que a solução para o problema não é simples e envolve diferentes frentes, como melhoria das práticas produtivas, uso racional de antibióticos e maior controle sanitário.

Ele também fez um alerta sobre o consumo de alimentos sem inspeção.

“Todo alimento de origem animal precisa ser inspecionado. O clandestino não é necessariamente mais saudável”, disse.

Para o pesquisador, o avanço no enfrentamento da resistência antimicrobiana depende da atuação conjunta entre ciência, setor produtivo e consumidores.