
Gilson Abreu/AEN
Durante palestra realizada no evento da Korin Bio nesta terça-feira (14), em São Paulo, o médico veterinário Luiz Carlos Demattê Filho, diretor da Korin Alimentos, fez um alerta sobre os impactos do uso de antibióticos na produção animal e os riscos crescentes da resistência bacteriana — fenômeno que já preocupa autoridades de saúde em todo o mundo.
Segundo o especialista, o problema vai além da cadeia produtiva e atinge diretamente a saúde humana, de forma ampla e muitas vezes invisível.
Demattê explicou que, historicamente, os antibióticos passaram a ser utilizados em larga escala na pecuária a partir do período pós-Segunda Guerra Mundial, quando se observou um efeito direto no crescimento dos animais.
“Eles sempre foram confundidos com hormônios, porque promoveram um ganho de peso muito acelerado”, afirmou. No entanto, o mecanismo é outro: ao interferirem no microbioma intestinal dos animais, os antibióticos acabam gerando um efeito anabólico indireto.
Esse fenômeno, segundo ele, não se limita aos animais. “Alguns pesquisadores da área humana já dizem que estamos fazendo algo parecido com os seres humanos, ao estarmos constantemente expostos a antibióticos”, disse, sugerindo possíveis impactos no metabolismo e no crescimento da população.
Um impacto difuso e sistêmico
Um dos pontos centrais da palestra foi a ideia de que a contaminação por antibióticos não ocorre apenas pelo consumo direto de alimentos, mas de forma difusa no ambiente.
“Não é um impacto só pelo alimento. É uma contaminação difusa, um processo sistêmico que afeta todos os compartimentos da nossa vida”, destacou.
Ele explicou que resíduos dessas substâncias se espalham pelo solo, pela água e por diferentes ecossistemas, criando um ciclo contínuo de exposição. Esse cenário contribui diretamente para o avanço da resistência bacteriana — quando microrganismos deixam de responder aos tratamentos disponíveis.
Embora o tema tenha começado a ganhar atenção nos anos 1990, Demattê destacou que o problema voltou com força nos últimos anos. “Os níveis de resistência bacteriana no mundo estão aumentando de forma assustadora”, afirmou.
Da saúde pública ao impacto econômico
De acordo com o diretor, a discussão sobre resistência bacteriana deixou de ser apenas um tema de saúde pública e passou a ter forte impacto econômico global.
Ele citou relatórios de instituições financeiras internacionais que já alertam investidores sobre os riscos associados ao problema. “Quando entra no campo econômico, todo mundo passa a prestar mais atenção”, observou.
A preocupação está ligada às cadeias globais de alimentos e ao impacto que práticas produtivas podem gerar tanto na saúde da população quanto na estabilidade de mercados.
Escala da contaminação preocupa
Para dimensionar o problema, Demattê apresentou dados da produção brasileira de frangos. Segundo ele, o país abate cerca de 25 milhões de aves por dia, gerando a mesma quantidade, em quilos, de resíduos orgânicos conhecidos como “cama de frango”.

Esse material, frequentemente utilizado na agricultura, pode conter antibióticos, inseticidas e outros compostos químicos. “Tudo isso vai para o solo, para os mananciais e contamina a água”, explicou.
Ao longo de um ano, o volume acumulado chega a milhões de toneladas, ampliando significativamente o impacto ambiental. “É um fenômeno gigantesco”, resumiu.
Além disso, ele destacou que o uso combinado de diferentes substâncias químicas — como antibióticos, herbicidas e fungicidas — cria um cenário ainda mais complexo. “Os modelos científicos conseguem avaliar a toxicidade de uma molécula isolada, mas não conseguem prever o efeito dessas combinações”, alertou.
Microbioma, intestino e saúde humana

Outro ponto de destaque foi a relação entre o uso de químicos e o desequilíbrio do microbioma, tanto no ambiente quanto no corpo humano.
Demattê explicou que substâncias amplamente utilizadas na agricultura, como herbicidas à base de glifosato, também possuem efeito antimicrobiano. Esse impacto pode alterar o equilíbrio das bactérias intestinais — fenômeno conhecido como disbiose.
Segundo ele, isso afeta diretamente a produção de substâncias essenciais ao organismo. “Os microrganismos do intestino são responsáveis por sintetizar aminoácidos como o triptofano, que está ligado à produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina”, explicou.
Esse desequilíbrio pode ter reflexos que vão desde processos inflamatórios até alterações comportamentais e neurológicas, tema que vem sendo cada vez mais explorado pela ciência.
Um efeito que vai além do consumidor
Demattê destacou que a redução no uso de antibióticos gera benefícios que extrapolam o consumidor final.
“Não é só quem compra o produto que se beneficia. Toda a sociedade ganha quando deixamos de lançar essas substâncias na natureza”, afirmou.
Ele definiu esse impacto como um “efeito altruísta”, já que a diminuição da carga química no ambiente contribui para a saúde coletiva, independentemente do consumo direto dos produtos.
Saúde única e mudança de paradigma
Ao final, ele defendeu o conceito de “saúde única”, que integra saúde humana, animal e ambiental — abordagem promovida por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde.
Para Demattê, repensar o modelo de produção de alimentos é essencial para enfrentar desafios como a resistência bacteriana. “Solo saudável gera plantas saudáveis, que geram animais saudáveis e, por consequência, seres humanos saudáveis”, afirmou.
O especialista reforçou que a transformação do sistema alimentar não é apenas uma questão produtiva, mas um passo necessário para garantir qualidade de vida e sustentabilidade no longo prazo.
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