
Nevasca intensa atinge a Europa
REUTERS/Roselle Chen
Resumo
Onda de frio e nevascas intensas atingem países europeus como Reino Unido, França, Holanda e Alemanha, trazendo transtornos logísticos, fechando escolas e cancelando voos, mas beneficiando regiões agrícolas ao contrário do calor, que favorece pragas.
Frio intenso e neve funcionam como saneamento natural para o solo, reduzindo a proliferação de bactérias, pragas e ervas daninhas, diminuindo o uso de defensivos químicos e garantindo a fisiologia correta de culturas como maçã e trigo, ao manter temperatura do solo e proteger raízes.
Regiões de altitude no Sul do Brasil dependem do frio para viabilizar culturas como maçã e trigo, mas enfrentam riscos como mofo da neve e veranicos, exigindo monitoramento constante e planejamento agrícola para evitar perdas por desequilíbrios climáticos.
Uma forte onda de frio e nevascas intensas atinge diversas regiões da Europa neste início de ano. Reino Unido, França, Holanda e Alemanha sentem o impacto em diversas áreas, com transtornos logísticos, na educação e na rotina em geral. Mas, diferentemente do calor, o frio intenso e a neve, quanto atinge áreas de produção agrícola, não causam tantos transtornos e sim, beneficiam as áreas.
O calor e a umidade, características tradicionais de países tropicais, é um ambiente perfeito para a proliferação de bactérias, pragas e vírus que prejudicam as lavouras. Já o frio intenso e a neve, atuam como um “protetor”, um esterilizador de solos, capaz de matar e frear o aparecimento de pragas. É o que está acontecendo na Europa. Já no Brasil, eventos como estes só acontecem em algumas áreas de Santa Catarina.
Enquanto turistas buscam pelo espetáculo visual da neve e da geada, os produtores rurais celebram o frio por um motivo econômico. As baixas temperaturas registradas no inverno atuam como um insumo natural indispensável, capaz de reduzir a necessidade de defensivos agrícolas e garantir a fisiologia correta de culturas como o trigo e a maçã.
Esse fenômeno, conhecido tecnicamente como "saneamento natural", é um aliado do Manejo Integrado de Pragas (MIP). O frio rigoroso quebra o ciclo reprodutivo de insetos e fungos que não resistem às baixas temperaturas, entregando um ambiente mais limpo para o início da safra de verão.
O mecanismo do 'cobertor térmico'
Ao contrário do que o senso comum sugere, a neve pode proteger a plantação. Segundo especialistas em agrometeorologia, a camada de neve atua como um isolante térmico. A estrutura dos cristais de gelo aprisiona bolsas de ar, funcionando de forma semelhante a um iglu. Isso mantém a temperatura do solo próxima de 0°C, mesmo que o ar externo esteja muito mais frio.
Essa proteção evita o congelamento profundo das raízes, permitindo que culturas de inverno sobrevivam e mantenham o solo coberto. Sem essa proteção, o congelamento letal das raízes — chamado de winter kill — poderia dizimar a lavoura.
Economia em defensivos químicos
A presença de frio intenso e a cobertura do solo pela neve ou geada trazem um benefício direto para o bolso do produtor: a redução no uso de agroquímicos. O processo ocorre por duas vias principais. A primeira é a supressão de ervas daninhas. A barreira física do gelo e a falta de luz inibem a germinação de plantas invasoras.
De acordo com informações d aEmbrapa, a cobertura de gelo pode suprimir a biomassa de invasoras entre 70% e 90%. Isso reduz drasticamente a necessidade de aplicar herbicidas dessecantes antes do plantio da próxima safra.
A segunda via é o controle de pragas. O inverno rigoroso elimina populações de insetos e patógenos que sobreviveriam em climas mais amenos, diminuindo a necessidade de "intervenções de resgate" com inseticidas químicos na primavera.
Impacto nas culturas do Sul: maçã e trigo
No Brasil, as regiões de altitude, como São Joaquim (SC) e Vacaria (RS), dependem desse clima para a viabilidade econômica de suas principais culturas. Para a produção de maçã, o frio não é apenas benéfico, é obrigatório. Variedades como Fuji e Gala exigem um acúmulo de "Horas de Frio" (HF) — geralmente cerca de 800 horas abaixo de 7,2°C — para entrar em dormência profunda.
A Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM) monitora esses índices de perto. Quando o inverno atinge essa meta naturalmente, a planta "descansa" adequadamente e a brotação na primavera é vigorosa e uniforme.
Se o inverno for quente, o produtor precisa gastar com compensadores químicos para induzir a brotação artificialmente. Portanto, o frio natural representa uma economia direta de insumos. No caso do trigo, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul destaca que o frio intenso estimula o perfilhamento. O perfilhamento é o processo em que a planta emite mais ramos laterais férteis, resultando em mais espigas por metro quadrado e maior produtividade, sem custo extra para o agricultor.
Pontos de atenção e riscos climáticos
Apesar dos benefícios, o cenário exige monitoramento constante. Existe um risco conhecido como "Mofo da Neve" (Snow Mold). Se a cobertura de gelo permanecer por tempo excessivo sobre um solo não congelado, fungos podem proliferar, exigindo o uso de fungicidas. Além disso, a irregularidade climática preocupa o setor. Relatórios recentes de entidades como a Epagri apontam para o perigo dos "veranicos" — dias de calor intenso no meio do inverno.
Esse desequilíbrio confunde a planta, que pode iniciar a brotação antes da hora e acabar morrendo com uma geada tardia subsequente. Por isso, a neve e o frio são mais eficazes quando integrados a um planejamento agrícola que considera as previsões meteorológicas de curto e longo prazo.
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