A tarifa adicional de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta-feira (22). A medida gerou debates sobre os impactos econômicos e as reais motivações por trás da barreira comercial.
De acordo com a análise do professor da FGV Daniel Vargas, a lista de bens atingidos indica uma estratégia voltada para setores onde há disputa direta com o produtor norte-americano.
- Itens taxados: etanol, açúcar, máquinas agrícolas, calçado e madeira.
- Itens isentos: café, carne bovina, suco de laranja, petróleo e aeronaves.
De acordo com Daniel Vargas, a escolha das isenções não ocorreu por acaso: taxar itens como café ou suco de laranja encareceria a cesta de alimentos do próprio consumidor americano. Por outro lado, a sobretaxa recaiu "exatamente onde o produtor brasileiro disputa cabeça a cabeça a concorrência com o mercado e o produtor norte-americano".
Etanol
O setor do etanol é considerado o exemplo mais emblemático dessa barreira comercial, segundo o especialista da FGV. Nos últimos anos, o Brasil expandiu significativamente suas exportações de combustível limpo para a América do Norte.
"O etanol talvez seja o caso mais emblemático dessa disputa. Ao longo dos últimos anos, aumentamos a nossa presença. Os Estados Unidos se tornaram o segundo maior mercado do nosso etanol, com 253 milhões de litros, atrás apenas da Coreia do Sul".
Para o especialista, o aumento das barreiras e investigações não se trata de ajustes regulatórios, mas sim de uma reação ao ganho de mercado das empresas brasileiras. "É o nosso sucesso que assusta e justifica as investigações e agora as taxações comerciais".
Novas investigações e incertezas no radar
O cenário pode se tornar ainda mais desafiador nos próximos dias. Segundo o governo brasileiro, uma segunda investigação conduzida pelos EUA — focada em alegações sobre condições de trabalho no setor produtivo — deve ter seu resultado anunciado até sexta-feira, podendo resultar em novas tarifas de até 12,5%.
Segundo Vargas, existem duas grandes dúvidas no mercado para os próximos passos:
- Cumulatividade de taxas: Se a nova alíquota de 12,5% será somada aos 25% já impostos.
- Lista de isenções: Se produtos hoje livres da taxa (como café e carne bovina) continuarão protegidos ou se passarão a integrar a nova rodada de sanções.
Ao analisar o contexto geopolítico global, Daniel Vargas pondera que o movimento reflete a criação de escudos comerciais diante da incapacidade de competitividade do mercado americano em determinados segmentos.
"Tudo isso significa que o que está acontecendo no jogo econômico das relações com os Estados Unidos talvez não seja exatamente uma tentativa de moralizar as relações econômicas entre os dois países, mas de definir proteções, escudos, muralhas para segurar espaço, sobrevida e renda para um conjunto de competidores que na bola já não conseguem mais competir e vencer".
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