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OMS reclassifica defensivo agrícola como "provável cancerígeno"

Sexto herbicida mais vendido no país, usado na soja e no milho, entra em nova lista de alerta global. Pesquisas da Unicamp detectaram a substância em 100% das amostras do Rio Atibaia

Da redação
DA REDAÇÃO

20/12/2025 • 22:42 • Atualizado em 20/12/2025 • 22:42

Pelo menos três produtos usados no Brasil foram reclassificados

Pelo menos três produtos usados no Brasil foram reclassificados

Sindan

Resumo

Reclassificação internacional da atrazina pela Agência Internacional de Pesquisas sobre Câncer (IARC), vinculada à OMS, atribuiu ao produto o status de "provável potencial carcinogênico" para humanos, após reunião com 22 cientistas de 12 países; substância é o sexto defensivo químico mais vendido no Brasil e seu uso permanece permitido, apesar de já estar banida em diversos países.

Monitoramento ambiental realizado pelo grupo da Unicamp, liderado por Cassiana Montagner, identificou atrazina em 100% das amostras de água coletadas na sub-bacia do rio Atibaia, responsável pelo abastecimento de Campinas e Grande São Paulo; pesquisadores alertam para a insuficiência dos sistemas de tratamento de água, que não eliminam o agrotóxico e podem gerar subprodutos ainda mais tóxicos.

Investigação científica aponta para o risco da interação entre atrazina e microplásticos, como poliamida e polietileno, potencializando o transporte do agrotóxico para novos ambientes e criando "coquetéis" químicos de efeitos desconhecidos para saúde e meio ambiente; especialistas defendem prioridade no enfrentamento da contaminação invisível diante da nova classificação internacional.

Uma decisão internacional acendeu um sinal de alerta para o agronegócio e para a saúde pública brasileira. A Agência Internacional de Pesquisas sobre Câncer (IARC), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS), reclassificou a atrazina como uma substância com "provável potencial carcinogênico" para humanos.

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A mudança de status foi definida após uma reunião realizada em novembro, em Lyon (França), que contou com 22 cientistas de 12 países. A atrazina é, atualmente, o sexto defensivo químico mais vendido no Brasil, sendo amplamente utilizada há mais de 40 anos no controle de plantas daninhas em lavouras de soja, milho e cana-de-açúcar.

O que muda com a nova classificação

Até então, a avaliação da IARC sobre a atrazina datava de 1998, quando a substância era considerada segura por falta de evidências científicas contrárias. Agora, o cenário mudou. Segundo o Volume 140 das Monografias da IARC, a nova classificação no grupo 2A ("provavelmente carcinogênico") baseia-se em três pilares:

  • Evidências limitadas de câncer em humanos (associações positivas para linfoma não Hodgkin);
  • Evidências suficientes de câncer em animais de laboratório;
  • Fortes evidências sobre os mecanismos de atuação da substância em sistemas experimentais.

Além da atrazina, o herbicida alaclor também recebeu a mesma classificação, enquanto o fungicida vinclozolin foi listado como "possível" cancerígeno. Vale lembrar que a atrazina já é banida em toda a União Europeia, no Reino Unido e em diversos países africanos, mas segue com registro ativo e uso massivo no Brasil.

Contaminação "invisível" nas águas de SP

A cientista brasileira Cassiana Montagner, coordenadora do Laboratório de Química Ambiental da Unicamp, é uma das autoras do artigo publicado na revista The Lancet Oncology que detalha essas conclusões. No Brasil, ela lidera o projeto "Plast-Agrotox", financiado pela Fapesp, que monitora o destino desses compostos na natureza.

Os dados locais são preocupantes. O doutorando Luís Felipe Lobo, orientado por Montagner, analisou a água da sub-bacia do rio Atibaia — responsável pelo abastecimento da região de Campinas e parte do Sistema Cantareira (que atende a Grande São Paulo).

Em resultados preliminares obtidos ao longo de 2025, o pesquisador encontrou atrazina em 100% dos pontos de coleta. Embora as concentrações estejam dentro dos limites que a legislação brasileira atual considera "seguros", a nova classificação da OMS coloca essa segurança em xeque.

“Não há concentrações seguras quando se trata de câncer. A ‘política’ adotada nesses casos é quase como a da legislação sobre consumo de bebidas alcoólicas: uma única gota já se torna intolerável”, avalia Cassiana Montagner.

O desafio do tratamento da água

Outro ponto crítico levantado pelos pesquisadores é a ineficiência dos sistemas tradicionais de limpeza da água para remover esses químicos. A estudante Isabela Bedani, que também integra o grupo da Unicamp, alerta que as redes de saneamento básico atuais não eliminam a atrazina.

Pior: o processo de tratamento pode gerar "subprodutos" — compostos derivados da degradação do agrotóxico — que muitas vezes são mais tóxicos que a substância original.

O efeito "coquetel" com microplásticos

A pesquisa também investiga como a atrazina interage com outros poluentes modernos, como os microplásticos. A pós-doutoranda Mariana Dias estuda a capacidade de materiais como a poliamida (usada em roupas esportivas) e o polietileno (embalagens) de "sorver" o agrotóxico.

O termo "sorver", na química, significa que o plástico carrega a molécula do veneno em sua superfície. Estudos preliminares mostram que a poliamida tem alta capacidade de reter a atrazina, transportando-a para locais onde originalmente ela não existiria e criando um "coquetel" químico de consequências ainda desconhecidas para o meio ambiente e para a saúde humana.

Para Montagner, a atrazina é um poluente onipresente. "É uma contaminação invisível que precisa ser priorizada com urgência, especialmente diante da nova reclassificação feita pela OMS", conclui a pesquisadora.