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Plano Safra: sustentabilidade se torna proteção econômica para agricultores

Endividamento do agronegócio e crise climática limitam novos créditos ao produtor rural

VIVIANE TAGUCHI

30/06/2026 • 12:27 • Atualizado em 30/06/2026 • 12:27

A agricultura sustentável se torna uma ferramenta estratégica para o futuro do agro nacional

A agricultura sustentável se torna uma ferramenta estratégica para o futuro do agro nacional

Trilux/CNA

O lançamento do Plano Safra 2026/2027 expõe um cenário em que a principal discussão não se restringe aos R$ 525 bilhões anunciados pelo governo federal para a agricultura empresarial. Atualmente, o debate foca na real capacidade do produtor rural de tomar novos créditos.

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Conforme dados do Banco Central, o agronegócio acumula R$ 140 bilhões em operações financeiras com problemas, incluindo inadimplência, atrasos, pedidos de recuperação judicial e renegociações de prazos. Esse endividamento elevado decorre de fatores conjunturais e climáticos que limitam a aptidão de parcela significativa dos produtores para buscar novos empréstimos, sejam eles com juros comerciais ou subsidiados.

A vulnerabilidade econômica vivida pelo setor está diretamente associada à queda nos preços das commodities de exportação e à alta nos custos de produção. O aumento nos preços de fertilizantes foi impulsionado pelos conflitos na Ucrânia e no Irã, somando-se à elevação dos combustíveis e às perdas consecutivas de safras por conta de eventos climáticos extremos. Diante dessa crise, entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reivindicam o acréscimo de recursos para o seguro rural, cujas apólices registram altas constantes devido ao acirramento dos riscos climáticos.

Sustentabilidade surge como proteção econômica para os produtores no longo prazo

Para especialistas do setor, o foco das políticas agrícolas deveria priorizar a transição sustentável e a resiliência das lavouras em vez de medidas imediatistas. Paulo Camuri, gerente de Ciência do Clima e Inteligência de Dados e Territorial do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), avalia que as cadeias da agropecuária precisam ampliar os investimentos em descarbonização — processo que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa — e em práticas de baixa emissão. Na visão do especialista, essa é a alternativa para diminuir a volatilidade dos sistemas produtivos perante a falta ou o excesso de chuvas.

Como recomendação para acelerar essa transição, o analista aponta a necessidade de ampliar a fatia do orçamento dedicada ao Plano ABC+ (Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), que historicamente recebe cerca de 5% do montante total do Plano Safra. O Imaflora orienta que dar escala à recuperação de pastagens degradadas, zerar o desmatamento e adotar técnicas de agricultura regenerativa aumentam a produtividade e fortalecem a segurança das culturas contra variações do clima.

Seguro rural é visto como medida paliativa e de alto custo futuro

A longo prazo, o investimento contínuo em subsídios para o seguro rural é classificado por analistas como um poço sem fundo, pois os fenômenos climáticos severos tendem a se intensificar, elevando o custo das apólices indefinidamente. O especialista do Imaflora ressalta que o orçamento do seguro rural provém de verbas discricionárias do governo federal, ou seja, recursos que não são obrigatórios e podem ser realocados para outras finalidades, gerando instabilidade.

Como alternativa de mercado, Camuri defende o uso da taxonomia verde — sistema de classificação que identifica atividades econômicas sustentáveis — por parte das instituições bancárias. Instrumentos que comprovem o compromisso climático da produção podem assegurar vantagens competitivas ao produtor rural junto à agroindústria e ao consumidor final, garantindo acesso privilegiado a mercados internacionais e maior valorização das commodities.