
Setor de leite enfrenta uma grave crise no Brasil
Wenderson Araujo/Trilux
Resumo
Mercado de leite brasileiro enfrenta queda acentuada nos preços ao produtor, com média de R$ 2,2996 por litro em outubro, representando a sétima baixa mensal seguida e desvalorização de 21,7% em um ano, segundo Cepea.
Oferta elevada de leite em relação à demanda provoca excesso de produto, pressionando as cotações e agravando a desvalorização real, que já acumula 14,1% em 2025, enquanto agentes de mercado preveem continuidade do movimento de baixa até o fim do ano.
Custos de produção sobem em ritmo desigual entre os estados, com aumentos em Rio Grande do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Paraná, e quedas em São Paulo e Santa Catarina, enquanto a indústria de laticínios enfrenta dificuldade para repassar preços, redução nos valores dos derivados e demanda enfraquecida, alimentando um ciclo de queda para o produtor.
O cenário para o produtor de leite brasileiro segue desafiador nesta reta final de 2025. O preço pago ao produtor registrou a 7ª queda mensal consecutiva, fechando outubro com média de R$ 2,2996 por litro no indicador "Média Brasil". Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o valor representa um recuo de 5,9% frente a setembro e uma desvalorização expressiva de 21,7% em um ano, já descontada a inflação pelo IPCA.
Essa trajetória de baixa no setor de leite reflete um desequilíbrio persistente entre a oferta e a demanda. O campo tem produzido mais do que o mercado consumidor consegue absorver neste momento, gerando um excedente que pressiona as cotações para baixo. No acumulado de 2025, a desvalorização real já chega a 14,1%, e a expectativa dos agentes de mercado é que o movimento de queda persista até o encerramento do ano.
Margens apertadas no campo
Enquanto a receita do pecuarista diminui, os gastos para manter a atividade mostram tendência de alta, criando o chamado "efeito tesoura" nas margens de lucro.
Novembro registrou uma elevação de 0,22% no Custo Operacional Efetivo (COE) na média nacional. O levantamento do Cepea mostra um cenário curioso: embora a ração tenha ficado mais barata, os demais grupos de insumos (como energia, medicamentos e mão de obra) subiram de preço, puxando a conta final para cima. A situação não é uniforme em todo o país. O comportamento dos custos foi heterogêneo entre os estados produtores:
Altas de custo: Rio Grande do Sul (+0,92%), Goiás (+0,67%), Minas Gerais (+0,26%), Bahia (+0,08%) e Paraná (+0,07%).
Quedas de custo: São Paulo (-0,67%) e Santa Catarina (-0,07%).
Indústria e derivados em baixa
A pressão não se restringe à porteira. A indústria de laticínios também enfrenta dificuldades para repassar preços ao varejo. Pelo terceiro mês consecutivo, os valores dos derivados lácteos (como queijos, leite em pó e UHT) caíram em novembro. De acordo com a pesquisa, realizada com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), dois fatores explicam esse comportamento:
Aumento na captação: A indústria recebeu mais matéria-prima do que o esperado.
Demanda enfraquecida: O consumidor final está comprando menos, obrigando o varejo a segurar os preços.
Quando o derivado perde valor na prateleira do supermercado, a indústria tende a pagar menos pela matéria-prima no mês seguinte, retroalimentando o ciclo de baixa para o produtor.
Comércio exterior: um alívio pontual
Se o mercado interno está travado, o cenário externo trouxe um leve alívio em novembro, ajudando a reduzir o déficit comercial do setor. As importações de lácteos caíram quase 15% na comparação mensal, totalizando 182,98 milhões de litros em equivalente leite. Na comparação com novembro de 2024, a queda nas compras externas foi de 12,69%.
Na outra ponta, as exportações brasileiras reagiram, crescendo 8,57% de outubro para novembro e somando 4,94 milhões de litros. Embora o volume exportado ainda seja pequeno frente ao importado, o movimento ajuda a enxugar parte da oferta excedente no mercado doméstico.
Para o produtor, o momento exige gestão rigorosa. Com a previsão de preços ainda em queda até o fim do ano e custos oscilando, a eficiência operacional será determinante para fechar as contas de 2025 no azul.
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