Abandonada pelo marido após o diagnóstico de um tumor cerebral, Queila contou apenas com o apoio do filho, David, que precisou inverter os papéis para cuidar da mulher que sempre o protegeu. A seguir, ele narra a emocionante e dolorosa jornada ao lado de sua mãe guerreira. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta terça-feira (30).
No fim, todo mundo acaba no mesmo lugar. Restam a dor, as lembranças e a escolha de tentar ser melhor do que ontem.
Eu cresci no Rio de Janeiro, em uma casa simples e cheia de amor, mas também marcada por grandes problemas. O meu pai era alcoólatra. Saía para beber e só voltava altas horas da madrugada. Eu via de perto o sofrimento da minha mãe, que ficava ali, deitada no sofá com a televisão ligada, esperando que ele chegasse. E quando ele chegava, estava sempre transtornado, bêbado, alterado. Ele agredia a minha mãe com palavras pesadas e eu assistia a tudo aquilo.
E mesmo passando o que passava com o meu pai, a minha mãe não deixava de me mimar. Ela era superprotetora, não me deixava nem arrumar meu quarto, estender uma roupa, nada. Eu reconheço que cresci cheio de vontade. Até na escola, quando mexiam comigo, ela era do tipo que batia de frente com qualquer um para me defender.
A dona Queila era trabalhadora, guerreira, fazia faxina para garantir comida na nossa mesa, e a alegria que tinha era a música. A música era o jeito de ela se ligar com Deus, era o que realmente a deixava feliz e que aliviava o peso daqueles dias difíceis com o meu pai. Minha mãe era serva do Senhor de verdade. Todo domingo ela cantava na igreja e, já na semana, ficava ensaiando, escolhendo hino, se preparando e sempre me perguntava o que eu achava. Era lindo...
A minha mãe sempre sonhou em ter muitos filhos e, mesmo com a vida ruim por causa do vício e das brigas do meu pai, ela engravidou de novo. Eu não queria acreditar, não me conformava por conta de tudo o que ela sofria.
Mas bem nessa época, a minha avó foi passar uns dias em casa e viu tudo o que acontecia ali. Como mãe, ela ficou arrasada e, por isso, pediu para irmos todos embora para a cidade dela. E assim foi: nós saímos do Rio de Janeiro e fomos morar de favor na casa dela, em Campos.
No começo, eu pensei que a minha vida tinha acabado. Eu me escondi do mundo, me tranquei no meu quarto, fugi e foi assim que eu acabei me envolvendo com o álcool e as drogas. A minha mãe via e, ainda assim, ela fazia de tudo por mim. Eu é que não enxergava.
Um dia, eu simplesmente falei para ela que era a hora de eu seguir a minha vida. Mesmo ela implorando para eu ficar, eu coloquei as minhas roupas dentro de uns sacos pretos de lixo e saí. No fundo, eu sabia que estava machucando muito o coração dela, mas só hoje, mais velho, é que eu consigo realmente ver como eu estava cego.
E ela, mesmo de longe, encontrava formas de estar por perto. Ela me ligava, pedia para ir até a minha casa para limpar, me perguntava se eu estava comendo, se precisava de alguma coisa. Tudo o que ela queria era uma desculpa qualquer para me ver. Eu, às vezes, cansava, achava que ela era implicante, mas era só o jeito de demonstrar o amor que sentia.
A descoberta de um tumor raro no cérebro
Alguns meses depois de eu ter me mudado, a minha mãe começou a ter umas dores de cabeça muito fortes. Ela pensou, a princípio, que era algum problema nos dentes e procurou uma dentista. Mas a dentista, quando viu um pouco de pus na boca dela, pediu que ela fizesse uma ressonância.
Eu peguei aquele exame, eu li e fui atrás de entender. Foi assim que eu descobri que minha mãe tinha craniofaringioma, um tumor benigno, mas que fica bem no meio do cérebro. A mesma doença que tinha levado os irmãos da minha mãe.
Eu pesquisei tudo, nos mínimos detalhes, e vi que era um tumor raro, que crescia muito rápido e que ficava atrás dos olhos. Eu fiquei assustado, nervoso e cometi a maior besteira de contar para ela o que eu tinha descoberto. Minha mãe, claro, ficou desesperada, deu um grito, perguntou se ia morrer e me fez prometer que cuidaria da minha irmã.
Depois, nós fomos ao médico, e tudo o que eu consegui fazer naquele momento foi ajoelhar e pedir que ele salvasse a vida dela. Eu lembro até hoje o som do choro dela ali do meu lado.
O médico conversou com a gente, olhou bem os exames e explicou que, devido à localização do tumor, o único tratamento possível seria a cirurgia. Não tinha outra saída. Sem a operação, ela tinha grandes chances de ficar totalmente cega, e esse era um dos maiores medos da minha mãe, uma mulher ativa, que sempre trabalhou fazendo faxina e que gostava de conquistar o próprio dinheiro. Mas ela também ficou apavorada com a cirurgia. Abrir a cabeça, lidar com todo aquele processo, tudo isso assustava demais. Só que era o único jeito. O único jeito!
Amor na saúde e na doença?
Muitas coisas mudaram depois do diagnóstico. Pela primeira vez, eu me vi com a responsabilidade de inverter os papéis e cuidar da minha mãe. E eu digo isso porque o meu pai simplesmente sumiu.
Ele não soube lidar com a doença dela. Aquele que prometeu estar junto na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, simplesmente desapareceu quando ela mais precisava. Ele fugiu.
Uma semana depois de receber o diagnóstico, ela foi cantar na igreja a música “Oferta Agradável a Ti”, da Cassiane. Ela mesma era uma oferta do Senhor, e Deus tinha arquitetado tudo para que eu descobrisse o tumor e pudesse acompanhar de perto cada passo do tratamento com ela.
Logo eu, que cresci sendo protegido em tudo, tive que aprender a cuidar dela, da casa, das coisas do dia a dia, de tudo. Era estranho inverter os papéis, mas o meu pai já tinha desaparecido, e quem estava ali com ela era eu.
A gente fez culto de oração, organizou uma corrente do bem, e minha mãe conseguiu mobilizar muita gente. Era como se tivesse um muro de fé ao redor dela, com pessoas orando todos os dias, pedindo para que tudo desse certo na primeira cirurgia. Mas não deu! Os médicos não conseguiram remover o tumor, porque ele estava em uma região muito difícil.
“Me afundei na bebida para tentar aliviar a dor”
Depois, a minha mãe começou a fazer radioterapia para tentar amenizar o tumor. Os médicos acreditavam que, junto com a medicação, a radioterapia faria com que ele retrocedesse, que murchasse, mas também não foi isso que aconteceu.
Ela enfrentou todas as sessões, um dia sim e outro não, com a força que sempre teve, mas no final, bom, eu posso dizer que ela nunca mais foi a mesma. Para mim, essa foi uma das fases mais difíceis, porque ver a transformação dela diante da doença acabava comigo.
A minha mãe começou a perder a visão e, ao mesmo tempo, passou a se perder em lembranças do passado, falando que via pessoas que já tinham morrido. Eu a percebia muito deprimida, e foi nesse momento que eu, o filho, tive que virar pai dela. Era como se ela tivesse se transformado numa criança frágil e totalmente dependente. Teve um dia que ela saiu sozinha, a pé, para ver a família, andando quase 10 quilômetros pelas ruas, totalmente perdida, desnorteada. Foi aí que eu percebi de verdade que estava perdendo minha mãe aos poucos.
Em meio a tudo isso, eu me afundei na bebida de um jeito que meu corpo nem sentia mais o efeito do álcool. A única coisa que eu conseguia era beber cada vez mais. Eu cheguei até a pedir dinheiro emprestado, porque tudo que eu tinha sumia, evaporava, e era só para comprar bebida.
Eu precisava aliviar a dor, e beber era a única coisa que me ajudava. Eu falo isso com dor, porque eu sei o quanto o álcool pode destruir, mas essa era a realidade. E mesmo assim, mesmo vivendo desse jeito, eu não deixava de cuidar da minha mãe. Eu dava tudo de mim, sem medir esforços, porque eu sabia que ela precisava de mim.
“Ela precisava ir, e eu só estava adiando o inevitável…”
Depois veio a pandemia e, junto com ela, o diagnóstico de Covid, que deixou tudo ainda mais difícil. Minha mãe já estava muito debilitada, muito inchada por causa da cirurgia e, com o vírus, piorou ainda mais. Nessa fase, ela precisou voltar a morar na casa da minha avó, porque eu precisava trabalhar e, mesmo com o coração apertado, eu não tive escolha. Era muita conta para pagar.
A minha avó cuidava da minha mãe como ninguém. Na casa simples em que elas viviam, ela se entregava de corpo e alma para dar a ela todo o cuidado possível. Mesmo assim, minha mãe estava tão fragilizada que, muitas vezes, quando eu olhava para ela, eu via só um olhar perdido, vago, distante de tudo. Ela ficava horas sentada, imóvel, como se estivesse mesmo em outro lugar. O mais impressionante é que, apesar da cabeça já supercomprometida, ela nunca esquecia os louvores. Ela cantava certinho, com perfeição, mesmo que já não conseguisse sequer manter uma conversa, mesmo que já não lembrasse nomes e nem lugares. As músicas da igreja, ela não esquecia.
Até que um dia a minha mãe acordou sem uma das coisas que ela mais amava: a voz. Em três anos, a doença tirou tudo dela e, a partir daquele dia, eu também nunca mais ouvi a voz da minha mãe.
No dia 30 de agosto de 2021, às 10 da manhã, eu recebi uma ligação antes de ir para o trabalho. Era do hospital, pedindo que algum familiar levasse alguns documentos. Eu perguntei diretamente se a minha mãe tinha morrido, e a moça disse que não podia dar nenhuma informação. Naquele instante, o chão se abriu. Eu soube que ela tinha me deixado e percebi que, no fundo, eu só tinha segurado tudo o que podia para atrasar a morte dela. Eu só estava, desesperadamente, tentando adiar o inevitável.
Depois da ligação, eu tive que resolver tudo sozinho, mas eu não tinha força. A vida perdeu a cor e o sentido para mim e, até hoje, eu não sei como fiz para dar conta de tudo. Para falar a verdade, eu não sei nem como eu consegui ficar de pé.
Quando cheguei na casa dela, abri o armário, vi os vestidos que ela mais gostava, senti o cheirinho dela e gritei. Gritei muito. Eu coloquei tudo para fora, porque ali caiu a ficha de que ela tinha me deixado e que, ao mesmo tempo, era o certo. Era o necessário. Ela precisava ir.
Depois, eu corri para o hospital e me deparei com um saco preto. Eu reconheci a minha mãe e tudo o que consegui dizer foi o quanto eu ia sentir saudade.
Em 24 horas, eu consegui organizar tudo para dar a ela um enterro digno. Eu mesmo levei o corpo para o cemitério. Ela estava no banco de trás, e eu posso dizer que estava linda, com um semblante tranquilo. No enterro, nós rezamos o Pai Nosso, e várias irmãs da igreja estavam lá. Foi muito triste, mas naquele momento, eu não conseguia chorar nem me expressar direito, eu só ficava ali, assistindo como se fosse um filme de terror, um pesadelo. Quando fecharam o túmulo, eu bati na pedra e gritei alto que estaria com ela até o fim.
Hoje, quando eu penso na minha mãe, eu não vejo apenas a dor da perda. Eu vejo a força que ela me deixou, a coragem de enfrentar cada dia, a fé que me ensinou sem precisar de palavras. Vejo que ela me preparou para a vida, mesmo quando parecia que eu estava perdido. A Queila me mostrou que amar é estar presente, mesmo quando tudo parece impossível. Que a vida pode nos derrubar, mas a gente aprende a se levantar, a carregar a dor e transformá-la em força.
A Queila não se foi de verdade. Ela continua em cada batida do meu coração, em cada passo que eu dou, e na certeza de que, um dia, a gente se encontra de novo. Até lá, carrego a minha mãe em mim e vivo.


