Ciência e Tecnologia

Açúcar é detectado pela 1ª vez no espaço e traz pistas sobre origem da vida

Estudo publicado na revista Nature Astronomy detecta eritrulosa no Meio Interestelar e indica síntese altamente eficiente em grãos de poeira cósmica

Da redação
DA REDAÇÃO

13/07/2026 • 14:40 • Atualizado em 13/07/2026 • 14:46

Açúcar é detectado pela primeira vez no espaço

Açúcar é detectado pela primeira vez no espaço

NASA, ESA, Joseph Olmsted (STScI)/Handout via REUTERS

Uma descoberta histórica para a astroquímica e para as investigações sobre a origem da vida confirma, pela primeira vez, a detecção de um açúcar no Meio Interestelar (ISM). O estudo, publicado na revista científica Nature Astronomy e liderado pela astroquímica espanhola Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia CSIC-INTA, aponta que a molécula orgânica está presente em uma região densa do espaço.

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Cientistas identificaram a eritrulosa, um açúcar do tipo cetose que contém quatro átomos de carbono (C4).

Na Terra, esse monossacarídeo é comumente encontrado em frutas, como a framboesa, e também possui aplicação na indústria de cosméticos, sendo utilizado em produtos autobronzeadores devido à sua reação com a queratina.

Detecção e a abundância molecular no Centro Galáctico

A observação inédita ocorre na direção da nuvem molecular G+0.693-0.027, uma área de extrema densidade e riqueza química situada perto do Centro Galáctico, a aproximadamente 8,2 quiloparsecs da Terra. Para captar a assinatura de rádio deixada pela molécula no espaço profundo, a equipe de pesquisadores utiliza varreduras espectrais de banda larga ultrasensíveis.

O trabalho envolve o uso conjunto de dois radiotelescópios terrestres de alta potência localizados na Espanha: o radiotelescópio de Yebes, de 40 metros, em Guadalajara, e o telescópio IRAM, de 30 metros, em Pico Veleta, na Sierra Nevada.

A análise estatística dos dados coletados confere alto nível de confiabilidade ao achado, indicando que a chance de as linhas espectrais observadas terem surgido por mero acaso é de somente 0,2%.

A descoberta traz surpresa para a comunidade científica por conta da quantidade do composto encontrada no espaço.

Tradicionalmente, os modelos químicos previam que a síntese interestelar de açúcares ocorria de forma gradativa, adicionando um átomo de carbono por vez. Por essa lógica, açúcares de três carbonos (C3), como o gliceraldeído ou a di-hidroxiacetona, deveriam ser muito mais abundantes.

No entanto, as varreduras mostram que a eritrulosa se provou pelo menos oito vezes mais abundante do que os seus análogos de três carbonos, que sequer foram detectados.

Para desvendar esse mistério químico, a equipe adota modelos químico-quânticos e simulações astroquímicas de Monte Carlo Cinético (KMC). Os resultados indicam que a eritrulosa se forma de maneira altamente eficiente na superfície de grãos de poeira cósmica a partir da colisão de fragmentos e moléculas mais simples de dois carbonos, como aldeídos e álcoois, descartando o processo de formação átomo por átomo.

Elo com os precursores da vida na Terra

Os açúcares são elementos fundamentais para os seres vivos, pois atuam no armazenamento de energia e integram a estrutura molecular do DNA e do RNA. Embora vestígios dessas substâncias já tenham sido identificados anteriormente em meteoritos e asteroides que atingiram a Terra, a ciência ainda não tinha a confirmação de que eles poderiam se formar diretamente no meio interestelar frio antes da consolidação dos planetas.

Sob condições aquosas, as cetoses sofrem fácil isomerização para aldoses, o que significa que a eritrulosa interestelar pode ter atuado como um estoque inicial de açúcares para os primeiros processos metabólicos e de replicação na Terra primitiva.

O estudo propõe que o composto estabelece uma ponte química direta entre os materiais orgânicos do espaço e os ácidos nucleicos alternativos ou precursores do RNA e DNA, como o ácido treonucleico (TNA).

O avanço ajuda a explicar como os componentes essenciais para o surgimento da vida foram semeados no planeta a partir do cosmos.

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