Economia

5 anos de Pix: como a transferência instantânea transformou a vida dos brasileiros?

Segundo especialistas, os principais beneficiados foram os pequenos empreendedores

Gabrielle Pedro
GABRIELLE PEDRO

14/11/2025 • 14:32 • Atualizado em 14/11/2025 • 14:32

Neste dominfo (16), o Pix completa cinco anos desde seu lançamento pelo Banco Central. O sistema de pagamentos instantâneos revolucionou a maneira como os brasileiros lidam com seu dinheiro — e para muitos, essa revolução já é parte da realidade diária.

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Para entender os impactos dessa mudança, conversamos com dois especialistas: Christian Squassoni, sócio da área de Direito Bancário no Barcellos Tucunduva Advogados (BTLAW), e Hugo Garbe, professor de Ciências Econômicas na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

A transformação da economia por meio do Pix

Para Squassoni, o Pix foi mais do que uma inovação tecnológica — foi um divisor de águas na economia brasileira. “Em apenas cinco anos, virou o meio de pagamento mais usado no país, ultrapassando o dinheiro em espécie até nas transações do dia a dia”, afirma.

Ele destaca que o Pix acelerou a circulação de recursos, reduziu custos para usuários e negócios, e democratizou o acesso aos pagamentos eletrônicos, beneficiando desde ambulantes até grandes varejistas.

Garbe reforça essa visão ao dizer que o Pix “reduziu barreiras de pagamento de forma tão intensa que alterou a dinâmica da economia”.

Transferências instantâneas, gratuitas para a maioria, estão disponíveis 24 horas por dia — o que, segundo ele, melhora o capital de giro de pequenos negócios e incentiva consumidores a efetuarem pagamentos de maneira mais ágil e eficiente.

Quem ganhou com o Pix?

Ambos os especialistas apontam para um beneficiário claro nessa revolução: os pequenos empreendedores.

Para Squassoni, o varejo, os micro e pequenos negócios foram os grandes ganhadores, já que agora podem receber pagamentos com QR Code quase que imediatamente, sem depender de maquininhas ou pagar tarifas elevadas.

No comércio eletrônico, o Pix ajudou a reduzir o abandono de carrinhos: a confirmação instantânea acelera o fechamento das vendas, segundo ele.

Garbe ressalta que setores com alta rotatividade de caixa — como alimentação, beleza, serviços e entregas — sentiram especialmente o impacto positivo. Para muitos autônomos, o Pix foi a porta de entrada para um sistema financeiro mais formal, sem burocracia excessiva.

Inclusão financeira

Uma das promessas mais fortes do Pix era promover a inclusão financeira — e, segundo Squassoni, ela se concretizou.

Com sua praticidade e gratuidade para pessoa física, o sistema derrubou barreiras históricas, especialmente quando combinado ao crescimento das fintechs. Isso permitiu que milhões de brasileiros sem conta em banco tradicional ingressassem no sistema financeiro.

Garbe vai além. Ele afirma que para muitos, o primeiro contato com o sistema formal veio justamente por meio do Pix.

Contas simplificadas, carteiras digitais e instituições não tradicionais foram portas para que pessoas sem relacionamento bancário tradicional começassem a usar não apenas o Pix, mas outros produtos financeiros como crédito ou cartão.

O fim gradual do dinheiro em espécie?

Embora o dinheiro físico ainda “exista”, segundo Squassoni, seu protagonismo diminuiu. Ele lembra que, conforme dados do Banco Central, os saques em espécie vêm caindo ao longo dos anos. O Pix já se consolidou como o meio preferido para muitas transações cotidianas — e não por acaso.

Para Garbe, o cenário é similar: nas grandes cidades e nas transações do cotidiano, o Pix substituiu uma parte relevante do papel-moeda.

No entanto, ele observa que o dinheiro em espécie ainda desempenha papel importante em localidades mais isoladas, em operações altamente informais ou entre pessoas que preferem o uso físico para controle de gastos.

Essa tendência de queda no uso de dinheiro físico se confirma em dados recentes: uma pesquisa do Google apontou que apenas 6% dos brasileiros dizem usar notas e moedas com frequência, algo que reflete bem a ascensão do Pix.

Impactos no e-commerce e nos pequenos empreendedores

No comércio digital, o Pix tornou-se um aliado poderoso. A liquidação imediata, segundo Squassoni, praticamente eliminou os atrasos típicos de boletos, acelerando o processo de compra.

Já para pequenos empreendedores, a vantagem está no recebimento instantâneo: “basta um QR code para receber em segundos, sem maquininhas e sem tarifas altas”, diz ele.

Garbe endossa que esse modelo elimina a necessidade de antecipação de crédito. Como o dinheiro entra no caixa imediatamente, o empreendedor não precisa depender tanto de capital de giro ou de empréstimos para financiar seu negócio.

Como os bancos foram afetados?

A popularização do Pix também redefiniu a estratégia dos bancos. Squassoni observa que, com a queda de relevância das tarifas tradicionais (como DOC e TED), as instituições financeiras tiveram que se reinventar. “O foco mudou: menos tarifa, mais relacionamento”, afirma.

Ou seja, oferecer crédito, seguros e serviços agregados passou a ser uma forma mais sustentável de gerar receita.

Do ponto de vista de Garbe, essa mudança de paradigma incentivou a competição no setor financeiro — o que, para os consumidores, pode ser bastante positivo.

Riscos e desafios do Pix

Apesar dos avanços, tanto Squassoni quanto Garbe alertam para desafios importantes. Um dos mais críticos é o aumento das fraudes e golpes. A instantaneidade e a conveniência do Pix exigem um sistema de segurança cada vez mais robusto.

O sócio do BTLAW aponta que o Banco Central respondeu criando o Mecanismo Especial de Devolução (MED), reforçando limites noturnos e investindo em educação financeira.

Garbe destaca que educar a população é fundamental: “entender que links de cobrança precisam ser verificados e que dados pessoais devem ser protegidos” é parte crucial da equação. Além disso, sustentar a infraestrutura para um número crescente de transações exige coordenação entre o BC, bancos e fintechs.

E o que vem por aí: o futuro do Pix

Os especialistas estão otimistas quanto às próximas evoluções. Squassoni menciona várias inovações já em curso:

Pix Automático, lançado recentemente, permite autorizações para débitos recorrentes — ideal para assinaturas e mensalidades.

Pix por Aproximação, previsto para entrar em operação, viabilizará pagamentos por aproximação via celular.

Pix Parcelado, cuja regulamentação deve sair até o fim do ano, permitirá parcelamento de compras no Pix, com liquidação imediata para o recebedor.

E, mais ambicioso, há a possibilidade de internacionalização do Pix, conectando-o a redes de pagamentos em outros países.

Garbe reforça essa perspectiva. Para ele, o Pix tende a deixar de ser apenas uma forma de transferência para se tornar uma verdadeira plataforma de pagamentos, capaz de concorrer com serviços tradicionais de crédito e boleto. Ele acredita que as novas funcionalidades vão consolidar ainda mais o papel do Pix na economia brasileira.

Cenário atual: números que não mentem

Os dados mais recentes comprovam a força do Pix no Brasil:

No primeiro semestre de 2025, o Pix foi responsável por 36,9 bilhões de operações, o que representa 50,9% de todas as transações de pagamento no país.

No mesmo período, foram movimentados cerca de R$ 15 trilhões por meio do Pix.

No ano de 2024, segundo a Febraban, o Pix registrou 63,8 bilhões de transações, um aumento de 52% em relação a 2023.

Em junho de 2025, o sistema bateu recorde com 276,7 milhões de transações em 24 horas, movimentando R$ 135,6 bilhões.

Um estudo do Movimento Brasil Competitivo estima que, em cinco anos, o Pix gerou uma economia acumulada de cerca de R$ 106,7 bilhões para consumidores e empresas.

Pix já faz parte da rotina

Depois de cinco anos, o Pix se afirma não apenas como a forma preferida de transferir dinheiro, mas como uma infraestrutura social e econômica central para o Brasil.

Ele democratizou os pagamentos, conectou milhões de pessoas ao sistema financeiro formal, reduziu custos e traz novas possibilidades de negócio — tudo isso enquanto impulsiona transparência, competição e inovação.

Para Squassoni, o Pix já é parte da rotina de brasileiros de todas as esferas. Para Garbe, trata-se de uma plataforma em constante evolução, que ainda deve crescer muito mais.

No caminho para o futuro, tanto o ecossistema financeiro quanto a regulação ainda terão desafios pela frente — especialmente no que diz respeito à segurança e à educação financeira.

Mas o balanço até agora é amplamente positivo: o Pix mudou não só como os brasileiros pagam, mas como veem e usam o próprio dinheiro.

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