Economia

Trump quer punir o Brasil por sucesso do Pix, diz vencedor do Nobel

Economista diz que medida tenta proteger empresas americanas, mas terá pouco efeito prático contra sistema de pagamentos brasileiro

Da redação
DA REDAÇÃO

20/07/2026 • 09:56 • Atualizado em 20/07/2026 • 09:56

Paul Krugman

Paul Krugman

Instagram @paulkrugman7

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, criticou a decisão do governo de Donald Trump de impor tarifas ao Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, em análise publicada nesta segunda-feira (20). Para ele, a medida busca punir o sucesso do Pix, mas dificilmente terá efeito.

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Pix não é prática desleal, avalia Krugman

Krugman questiona o argumento de que o Brasil pratica concorrência desleal ao disponibilizar o Pix. “Por que seria desleal um país oferecer aos próprios cidadãos uma forma melhor de fazer pagamentos?”, escreve, ao lembrar que o sistema se tornou amplamente usado com transações gratuitas para pessoas físicas e de baixo custo para empresas.

Ele afirma que classificar o Pix como prática comercial desleal não faz sentido. “Desde quando é uma prática desleal uma empresa perder mercado para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?”, questiona, sugerindo que a crítica se concentra na perda de espaço de empresas privadas de meios de pagamento.

Obrigatoriedade do sistema nos bancos

Segundo Krugman, a exigência de que bancos brasileiros ofereçam o Pix é comparável à obrigação de instituições financeiras nos Estados Unidos aceitarem depósitos e saques em dólares. Na visão dele, a regra não concede vantagem indevida sobre meios privados, como cartões de débito, mas garante acesso a um serviço público básico.

Para o economista, a principal preocupação por trás das críticas americanas ao Pix está no impacto potencial sobre empresas como Visa e Mastercard e, em menor medida, no temor de que sistemas públicos de pagamentos possam, no futuro, desafiar a predominância internacional do dólar.

Temor pelo dólar e avanço europeu

Apesar de reconhecer esse receio, Krugman avalia que o Brasil é pequeno demais para alterar significativamente o equilíbrio global da moeda americana. Para ele, um desafio mais relevante viria da eventual criação de um euro digital pelo Banco Central Europeu, capaz de oferecer alternativa à infraestrutura de pagamentos hoje dominada pelos Estados Unidos.

Criptoativos e resistência ao dólar digital

Krugman também critica a resistência de parlamentares republicanos à criação de uma moeda digital emitida pelo Federal Reserve. Segundo ele, a oposição tem menos relação com questões técnicas e mais com o receio de que um dólar digital reduza a demanda por stablecoins e outros criptoativos. “A verdadeira preocupação é que funcionaria bem demais”, afirma.

Impacto político e econômico das tarifas

Na avaliação do Nobel, as tarifas anunciadas pelo governo Trump dificilmente alcançarão o objetivo de enfraquecer o Pix e a posição do Brasil. Politicamente, ele afirma que a medida tende a fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao apresentar o país como alvo de retaliação por adotar uma inovação bem-sucedida.

Do ponto de vista econômico, Krugman argumenta que Washington tem alcance limitado para elevar tarifas sobre produtos como café, suco de laranja e carne bovina, devido ao risco de pressionar preços para consumidores americanos. Ele cita a economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, segundo quem o redirecionamento do comércio provocado por medidas anteriores dos Estados Unidos acabou fortalecendo a posição exportadora do Brasil.

Com informações do Estadão Conteúdo.