
PÁSCOA
DIVULGAÇÃO
A Páscoa de 2026 chegou com uma contradição estampada nas telas dos celulares de milhões de brasileiros. Nunca antes, em 16 anos de registro, tantas pessoas buscaram no Google pela expressão "chocolate barato" na semana que antecede o feriado. O volume de pesquisas atingiu o pico absoluto da série histórica, superando anos anteriores como 2023 e 2025, que já tinham sido recordes.
Entre as buscas que mais cresceram nesse recorte, a mais recorrente é "Onde comprar chocolate barato?".

A explicação para esse comportamento está nas prateleiras. O chocolate acumula alta de 16,71% no último ano, mais de cinco vezes acima da inflação geral, que ficou em torno de 3,18% no mesmo período, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) divulgado às vésperas do feriado.
Em quatro anos, a alta chega a quase 50%. Para quem compra um ovo de Páscoa sem olhar a etiqueta, o susto pode ser considerável: levantamentos de mercado apontam preços médios na faixa de R$ 304 por quilo em algumas regiões do país.
A crise que começou na África e chegou ao supermercado
A raiz do problema está a milhares de quilômetros daqui. Gana e Costa do Marfim, dois países africanos responsáveis por cerca de 60% da produção mundial de cacau, enfrentaram uma combinação devastadora de secas, chuvas irregulares e doenças nas lavouras nos últimos anos — efeitos diretos do fenômeno El Niño. O resultado foi um déficit global de 700 mil toneladas de cacau, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab). A tonelada da commodity, negociada a cerca de US$ 2.500 em 2022, chegou a bater US$ 12 mil no pico da crise — uma alta de quase 380%.
Os preços internacionais recuaram desde então, chegando a cair cerca de 60% em relação ao pico, segundo dados de mercado. Esse alívio, porém, não chegou às gôndolas a tempo desta Páscoa, e provavelmente não chegará tão cedo.

As indústrias trabalham com contratos de compra antecipada de matéria-prima, fechados meses antes quando os preços ainda estavam nas alturas. "Em produtos mais industrializados, a queda da matéria-prima demora a chegar ao bolso do consumidor", explicou o economista Matheus Dias, do FGV/Ibre. Outro fator que sustenta os preços elevados é a concentração de mercado: cinco marcas de apenas três empresas respondem por 83% das vendas de bombons e chocolates no Brasil, de acordo com levantamento do economista Valter Palmieri Junior, da Unicamp.
O azeite surpreende e o bacalhau recua
Se o chocolate conta a história do consumidor pressionado, o azeite de oliva conta uma diferente. As buscas pelo produto cresceram cerca de 40% nesta Páscoa em relação a 2025 — o maior salto de interesse entre os produtos típicos da data. O pico aconteceu justamente no fim de semana anterior à Sexta-feira Santa, o que sugere um consumidor que planejou a compra com antecedência, possivelmente em busca de garantir o produto antes de qualquer nova variação de preço.

O comportamento faz sentido diante do histórico recente. O azeite chegou a acumular alta de quase 35% nos quatro últimos anos, segundo a FGV, tornando-se símbolo de encarecimento durante a pandemia e o período inflacionário que a seguiu. Mas o cenário mudou: em 2026, o produto registrou queda de 23,2% no preço em relação ao ano anterior, segundo o mesmo levantamento, impulsionada pela normalização da oferta global. O consumidor parece ter notado e aproveitado.
Já o bacalhau dá sinais de resistência do outro lado. As buscas pelo pescado nesta Páscoa ficaram praticamente na metade do volume registrado em 2025. O produto segue com seu pico sazonal clássico (todo ano ele dispara nas semanas de Quaresma), mas a queda de interesse é expressiva. Com alta acumulada de mais de 31% em quatro anos e um reajuste de 9,9% só no último período, o bacalhau foi migrando para o patamar de item de luxo em muitas mesas brasileiras. O consumidor não deixou de querer o produto; ele passou a considerar se pode — ou se vale — pagar por ele.

Cesta mais barata, mas a conta ainda pesa
O quadro geral da Páscoa 2026, à primeira vista, parece positivo: levantamento do FGV/Ibre indica que a cesta típica do feriado ficou 5,73% mais barata em relação ao ano anterior — o segundo recuo consecutivo, após a queda de 6,77% em 2025. Mas o economista Matheus Dias alerta para a armadilha da média. "A cesta conta apenas metade da história", disse. "Itens cujos preços médios são mais elevados, como bacalhau, atum e chocolates, tiveram altas expressivas", completou. Na prática, quem coloca na mesa os produtos mais tradicionais da data sente um feriado bem mais caro do que os números agregados sugerem.
Mesmo assim, a intenção de consumo segue firme: pesquisa do Instituto Locomotiva aponta que 90% dos brasileiros pretendem comprar produtos relacionados à Páscoa neste ano. O que muda é a estratégia. A indústria já antecipou o movimento, apostando em embalagens menores, novas composições com frutas, castanhas e pistache, e produtos de diferentes faixas de preço. "O ovo de 1 kg vai virar 500g, o de 500g vai virar 300g", resumiu Marco Lessa, fundador do Chocolat Festival, em declaração ao Metrópoles.
Lidos em conjunto, os dados do Google Trends desta Páscoa constroem um retrato preciso de um consumidor que não desistiu da tradição, mas que aprendeu a negociar com ela. No chocolate, pesquisa onde comprar mais barato e adapta o tamanho do presente ao orçamento. No azeite, antecipa a compra para garantir o preço. No bacalhau, pondera se a tradição cabe no bolso este ano.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:

