O dólar despencou no mercado doméstico nesta terça-feira, 27, e encerrou a sessão no menor nível desde o fim de maio de 2024. A moeda norte-americana caiu 1,38% e fechou cotada a R$ 5,2067, após tocar mínima de R$ 5,1987 na última hora de negócios. Ao longo da tarde, o câmbio operou, de forma consistente, abaixo de R$ 5,20.
Depois de ter subido 2,89% em dezembro, o dólar acumula queda de 5,14% em janeiro, em meio ao enfraquecimento global da moeda americana, ao fluxo de capital estrangeiro para a Bolsa brasileira e às expectativas em torno da trajetória dos juros no Brasil e nos Estados Unidos.
Em 2025, a divisa caiu 11,18%, na maior desvalorização anual desde 2016, o que, segundo operadores, reforça a leitura de perda de fôlego da moeda americana no cenário internacional.
No pregão desta terça, a alta de mais de 2% nas cotações do petróleo e o apetite por risco em mercados emergentes ajudaram a atrair recursos para ativos brasileiros, em especial ações. O saldo de investimento estrangeiro na B3 já supera R$ 15,7 bilhões no ano, de acordo com dados preliminares.
Inflação comportada e juros sustentam moeda brasileira
No front doméstico, o IPCA-15 de janeiro veio abaixo das expectativas do mercado e reforçou a aposta de início do ciclo de cortes da taxa Selic a partir da reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom).
A perspectiva para a chamada Super Quarta, quando Copom e Federal Reserve divulgam simultaneamente suas decisões de política monetária, é de manutenção dos juros tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Para analistas, a combinação de taxa doméstica elevada com juros estáveis lá fora mantém um amplo diferencial, que estimula operações de carry trade e sustenta a demanda por real.
Segundo o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, a dinâmica atual reflete a realocação de portfólios em direção a mercados emergentes.
"Obviamente, o real é favorecido pela migração de recursos dos Estados Unidos para mercados emergentes, com todo o desgaste da política econômica e comercial americana. Além disso, a expectativa é de que o Banco Central seja comedido no processo de cortes de juros, que deve começar em março", afirma Velloni.
Dólar enfraquece no mundo e DXY encosta em mínimas
Operadores destacam que a redução da exposição a ativos americanos, em meio às incertezas provocadas pelo que classificam como política econômica e comercial errática do presidente Donald Trump, tem favorecido moedas e Bolsas de países emergentes. O impasse em torno do orçamento nos Estados Unidos, combinado à turbulência gerada pela política migratória, reacende o temor de uma nova paralisação parcial da máquina pública americana (shutdown).
No mercado internacional, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, recuou ao menor patamar desde fevereiro de 2022. Euro e libra atingiram os maiores níveis em relação à moeda americana desde 2021. O iene ganhou força após declarações da ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, de que tomará "medidas apropriadas nos mercados de câmbio, se necessário" e manterá "contato próximo" com os Estados Unidos sobre o tema.
Reportagem do jornal Wall Street Journal informou que o Federal Reserve de Nova York contatou potenciais contrapartes comerciais na sexta-feira para verificações de taxas de câmbio, movimento que alimentou especulações sobre uma possível intervenção coordenada entre autoridades americanas e japonesas para sustentar o iene.
Trump pressiona Fed e reforça tese de dólar mais fraco
À tarde, Trump voltou a afirmar que gostaria de ver novas quedas dos juros nos Estados Unidos e disse que o dólar está em um "ótimo valor". No entanto, as apostas são quase unânimes de que o Federal Reserve deve anunciar nesta quarta-feira a manutenção da taxa básica americana na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, após três cortes consecutivos de 25 pontos-base.
O banco central dos Estados Unidos está sob críticas recorrentes do presidente americano, e parte do mercado teme interferências na condução da política monetária em caso de troca do comando da instituição. O mandato do atual presidente, Jerome Powell, termina em maio, e há expectativa em torno de uma eventual indicação de Trump para o cargo.
Para o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, as recentes declarações da equipe econômica da Casa Branca sinalizam uma disposição maior em conviver com um dólar mais fraco.
"A equipe econômica de Donald Trump tem sinalizado compreensão clara dos efeitos de um dólar mais fraco sobre competitividade externa. Esse fator tem contribuído para a desvalorização da moeda americana em nível global", afirma Galhardo, ao lembrar que a queda do índice DXY no acumulado de 12 meses é a mais forte desde 2011.
Ele acrescenta que o real aparece entre os principais beneficiados desse movimento, ao combinar o dólar globalmente mais fraco com um fluxo externo favorável para a renda fixa e a renda variável brasileiras.
Ibovespa fica perto dos 182 mil pontos em novo recorde histórico
Após a pausa do dia anterior, o Ibovespa retomou nesta terça-feira, 27, a escalada para novas máximas históricas, atingindo nova marca inédita, de 183 mil pontos, durante a sessão. Assim, retoma o que se viu no intervalo entre terça e sexta-feira passadas, quando saiu de 166 mil para os 180 mil pontos no melhor momento, encadeando quatro sessões de recordes no intradia e em encerramento. Nesta terça-feira, o índice da B3 subiu 1,79%, aos 181.919,13 pontos, com giro financeiro a R$ 35,3 bilhões, ainda sólido. Na semana, em duas sessões, agrega 1,71%, colocando o ganho do mês perto de 13%, a 12,91%.
Das últimas seis sessões, o Ibovespa renovou recordes em cinco, à exceção de segunda-feira. Desde 14 de janeiro, a de agora é a sétima renovação de recorde de fechamento pelo índice da B3, cuja melhor marca anterior era a de 164,4 mil pontos correspondente ao encerramento de 4 de dezembro passado.
Destaque, para os carros-chefes do setor financeiro, com ganhos até 3,18% (Santander Unit) no fechamento, bem positivo também para a principal ação do segmento, Itaú PN, em alta de 2,65%. Principal ação do Ibovespa, Vale ON também foi bem, com avanço de 2,20%. E houve contribuição forte também de Petrobras, com a ON em alta de 2,80% e a PN, de 2,18%, no encerramento de sessão em que os contratos futuros de petróleo avançaram perto de 3% em Londres e Nova York.

