Economia

Excesso de energia solar faz ONS acionar plano inédito contra apagões

Pela primeira vez na história do setor elétrico, operador corta a produção de pequenas usinas regionais durante o feriado prolongado devido à baixa demanda e ao pico de geração solar

Da redação
DA REDAÇÃO

07/06/2026 • 08:55 • Atualizado em 07/06/2026 • 09:12

Expansão do uso de energia solar começa preocupar autoridades

Expansão do uso de energia solar começa preocupar autoridades

Agência Brasil

O forte crescimento da energia solar trouxe um desafio inédito para a infraestrutura energética. Durante este fim de semana de feriado prolongado, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou, pela primeira vez na história, o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição. A medida extrema foi necessária para conter os riscos gerados pelo excesso de geração e garantir a estabilidade do abastecimento nacional.

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O acionamento do plano ocorreu devido à combinação de dois fatores: o baixo consumo de eletricidade — típico de feriados e domingos, quando indústrias e o comércio reduzem o ritmo — e a forte radiação solar registada em grande parte do território. Sem procura suficiente para absorver a energia gerada em tempo real pelos painéis fotovoltaicos, as redes locais de distribuição ficaram saturadas.

O sistema elétrico precisa de operar num equilíbrio constante, mantendo a frequência da rede estável em 60 Hertz (Hz). Quando a produção supera significativamente o consumo, a frequência sobe a níveis perigosos. Para proteger a infraestrutura e evitar a queima de equipamentos, os mecanismos automáticos de segurança desligam as linhas de transmissão, o que poderia resultar em apagões em cadeia caso o operador não interviesse.

Como funciona o corte controlado

Anteriormente, o ONS geria o equilíbrio do sistema cortando apenas a produção de grandes centrais hidrelétricas ou de megaparques solares e eólicos centralizados. Contudo, com a expansão massiva da chamada micro e minigeração distribuída (MMGD) — que inclui os painéis em telhados e pequenas usinas regionais —, as grandes usinas já não são suficientes para absorver toda a sobra em dias de baixíssima procura líquida.

Com o novo plano emergencial, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o ONS calcula o montante de energia que precisa de ser "podado" e aciona as distribuidoras locais. São estas empresas concessionárias que efetuam as restrições operacionais nas redes de média tensão, focando-se em usinas de até 50 MW (conhecidas como usinas de Tipo III).

O impacto para investidores e consumidores

Para o consumidor residencial que possui placas solares instaladas no telhado de casa, o impacto imediato é nulo. Os sistemas de desligamento remoto das distribuidoras são estruturados para atingir fazendas solares de investimento e instalações de médio porte. Para o público geral, a medida funciona como um escudo de proteção para evitar interrupções inesperadas no fornecimento de energia.

Por outro lado, a medida liga o sinal de alerta para os investidores de minigeração distribuída e pequenas centrais hidrelétricas, dado o impacto financeiro da energia que deixa de ser contabilizada. Para mitigar estes prejuízos e evitar que os mesmos agentes sejam penalizados consecutivamente, as distribuidoras são obrigadas a adotar um sistema de rodízio técnico para os cortes.

Esta operação inédita evidencia que a matriz elétrica mudou de patamar. O desafio do futuro próximo deixa de ser a falta de energia e passa a focar-se na criação de inteligência de rede, na expansão das linhas de transmissão regionais e no desenvolvimento de sistemas de baterias de armazenamento em larga escala, capazes de guardar o sol do meio-dia para os picos de consumo noturnos.