
Foram anos de estudos, dificuldades financeiras e uma trajetória marcada pela perseverança
Arquivo pessoal
Desde os seis anos, Rosângela Fernandes de Oliveira Araújo, 40, sabia que queria ser médica. Crescida em Afonso Bezerra, no interior do Rio Grande do Norte, ela encontrou inspiração na primeira médica que conheceu: a doutora Ivanise. O desejo de cuidar de pessoas nasceu cedo, mas permaneceu em silêncio durante muitos anos.
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Filha de um agricultor semianalfabeto e de uma merendeira escolar analfabeta, Rosângela cresceu em uma família de cinco irmãos e enfrentou dificuldades financeiras desde a infância. O sonho parecia distante. Ela conta que nunca teve coragem de falar sobre o desejo de cursar medicina por medo da reação da família.
A lembrança de uma brincadeira de infância ainda permanece viva. Enquanto fingia atender familiares e escrever receitas, um pensamento mudou sua trajetória por muitos anos: "Você nunca vai conseguir, só filhos de ricos conseguem".
A partir daquele momento, desistiu do sonho e seguiu outro caminho. Casou-se jovem, teve dois filhos e trabalhou como vendedora, atendente, faxineira e professora de jardim de infância.
Aos 22 anos, durante um culto evangélico, a vontade de estudar ressurgiu. Pouco tempo depois, porém, enfrentou outro desafio. Após a morte da mãe, desenvolveu síndrome do pânico e passou anos desejando retomar os estudos, sem conseguir.
A mudança começou em 2019. Sem trabalhar, decidiu estudar sozinha, utilizando aulas disponíveis no YouTube. Com uma base escolar que considera deficiente, precisou reconstruir praticamente todo o aprendizado do ensino médio. Foram três anos de estudos independentes, seguidos por um ano de cursinho preparatório.
A rotina exigia disciplina. Nas segundas-feiras, dedicava o dia às tarefas domésticas. Nos demais dias da semana, incluindo sábados e domingos, estudava cerca de sete horas por dia.
O caminho até a aprovação foi longo
Rosângela realizou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) cinco vezes e conquistou a vaga apenas na quinta tentativa. Segundo ela, nunca mais pensou em desistir depois que decidiu retomar o sonho. O apoio do marido, dos filhos e dos irmãos foi fundamental durante esse período.
A aprovação veio por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), com financiamento de 100%. Na época, ela cursava odontologia pelo Programa Universidade para Todos (Prouni), mas nunca havia abandonado o objetivo de estudar medicina. Ao receber a notícia de que havia sido pré-selecionada pelo Fies, trancou imediatamente a matrícula anterior.
Hoje, aos 40 anos, Rosângela cursa o primeiro período de medicina na Universidade Potiguar (UnP). Entre os momentos mais marcantes dessa nova etapa, ela destaca a cerimônia do jaleco. Ouvir seu nome ser anunciado representou a confirmação de que o impossível havia se tornado realidade.
A rotina universitária é intensa. Além das aulas, ela concilia as responsabilidades da casa e enfrenta desafios financeiros, principalmente com gastos de transporte e alimentação. Mesmo após dias exaustivos, como jornadas que começam às 8h e terminam às 18h30, mantém o foco no objetivo de concluir a graduação.
Seu projeto para o futuro já está definido: pretende seguir a especialidade de Ginecologia e Obstetrícia e deseja ser reconhecida não apenas pelo conhecimento técnico, mas também pela empatia e pelo cuidado com os pacientes.
Para quem sonha em estudar medicina, Rosângela reforça que, se existe vocação para cuidar das pessoas, vale a pena persistir. Ela também destaca a importância da rede de apoio familiar, especialmente diante do desgaste físico e emocional que acompanha a formação médica.
A história de Rosângela mostra que não existe idade certa para realizar um sonho. Com perseverança, dedicação e apoio, uma trajetória marcada por desafios pode se transformar em inspiração para milhares de estudantes que acreditam que a medicina é o caminho que desejam seguir.
