Ortopedia: como é a rotina do médico e os desafios da especialidade

Médico relata cotidiano da profissão, entre consultório, cirurgias e decisões compartilhadas com pacientes

PRISCILLA VIERROS

11/05/2026 • 12:09 • Atualizado em 11/05/2026 • 12:09

Técnica e comunicação têm impacto direto na qualidade de vida do paciente

Técnica e comunicação têm impacto direto na qualidade de vida do paciente

Crédito: Magnific

Para quem busca entender melhor as especialidades médicas, a ortopedia se destaca por ser uma área resolutiva, com impacto direto na mobilidade e na qualidade de vida dos pacientes. Voltada ao diagnóstico e tratamento de lesões musculoesqueléticas, a especialidade exige precisão técnica, tomada de decisão clínica e, cada vez mais, uma relação próxima com o paciente.

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Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre especialidades médicas, desenvolvida para auxiliar estudantes de medicina na escolha de suas futuras carreiras. O objetivo é apresentar os bastidores, os desafios e a realidade prática de cada área, oferecendo um guia realista para quem está prestes a decidir seu caminho profissional.

O ortopedista Bruno Butturi Varone, de 36 anos, conta que seu interesse pela medicina surgiu pelo contato humano. “Sempre gostei de conversar, entender o que o outro está vivendo e impactar positivamente a vida das pessoas. Esse fator humano teve um peso muito importante na minha escolha”, afirma.

Bruno Butturi Varone I Crédito: Arquivo pessoal

Bruno Butturi Varone I Crédito: Arquivo pessoal

Formado pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em Ortopedia no Hospital das Clínicas, especialização em cirurgia do joelho e lesões do esporte pela Universidade de Iowa e doutorado em artrose de joelho, Varone construiu uma trajetória voltada à recuperação funcional dos pacientes. “Uma das minhas metas é devolver mobilidade e qualidade de vida”, diz.

O dia a dia da especialidade

A rotina do ortopedista é dividida entre atendimentos clínicos e procedimentos cirúrgicos. A carga de trabalho gira em torno de 50 a 60 horas semanais, considerando atendimentos presenciais e acompanhamento remoto.

O médico relata que, no consultório, o dia começa cedo, geralmente entre 7h30 e 8h, com consultas detalhadas e tempo dedicado à explicação dos diagnósticos e das opções de tratamento.

Faço questão de conversar bastante com o paciente, explicar o que está acontecendo e discutir as possibilidades. A decisão precisa ser construída em conjunto. Bruno Butturi Varone

Um diferencial na prática, segundo ele, é a disponibilidade fora do consultório. “Respondo pessoalmente dúvidas dos pacientes ao longo do dia, principalmente por WhatsApp. É uma área em que há muita insegurança, e esse acompanhamento faz diferença.”

As cirurgias se concentram, em geral, em dias específicos da semana, com foco em procedimentos como artroscopias e próteses de joelho. “Ter uma equipe bem entrosada é fundamental para garantir bons resultados”, diz.

Do técnico ao humano: o que muda na prática

Antes de entrar na especialidade, a expectativa era de uma rotina mais centrada no centro cirúrgico. Na prática, o cenário foi diferente. “Eu imaginava consultas rápidas, mas acabei me dedicando muito ao atendimento. Hoje, passo mais tempo no consultório do que operando”, afirma.

Segundo Varone, conhecer profundamente o paciente e dividir decisões é parte essencial do tratamento. “Muitas vezes, isso é mais importante do que simplesmente indicar um procedimento de forma unilateral.”

Perfis de pacientes e principais demandas

Na prática clínica, os pacientes se dividem, principalmente, em dois grupos, comenta.

O primeiro é formado por pessoas mais jovens, entre 15 e 45 anos, geralmente fisicamente ativas. Nesse perfil, são comuns lesões de menisco e ligamentos, especialmente do ligamento cruzado anterior, frequentemente tratadas com cirurgia para permitir o retorno às atividades esportivas.

O segundo grupo inclui pacientes acima dos 50 anos, com desgaste articular, como a artrose de joelho. Nesses casos, o tratamento pode envolver fortalecimento muscular, reabilitação, infiltrações articulares e, em situações mais avançadas, cirurgia de prótese.

“Recebo desde casos mais simples até quadros complexos encaminhados por outros especialistas”, explica.

Desafios na ortopedia

Um dos principais desafios da trajetória profissional é a construção da carreira após a formação.

“Havia uma expectativa de que o consultório cresceria rapidamente, mas não funciona assim. A medicina privada exige tempo, consistência e construção de confiança”, afirma.

Segundo ele, grande parte do crescimento vem da indicação de pacientes. “O boca a boca é fundamental. Resultados consistentes ao longo do tempo fazem a diferença.” Na rotina atual, um dos pontos mais desgastantes é a burocracia relacionada a convênios, especialmente na elaboração de relatórios para reembolso.

Além disso, a adesão do paciente ao tratamento é um fator crítico. “O resultado não depende só do procedimento. A participação ativa na reabilitação, com fisioterapia e fortalecimento, é essencial.”

Mercado, qualidade de vida e retorno financeiro

A inserção na área, especialmente em grandes centros como São Paulo, é cada vez mais competitiva. “Isso exige investimento em formação e diferenciação ao longo da carreira”, afirma.

Do ponto de vista financeiro, a ortopedia pode ser uma especialidade recompensadora, mas o retorno está diretamente ligado à qualidade do trabalho. “O resultado financeiro é consequência de um bom atendimento e da construção de reputação.”

Em relação à qualidade de vida, o equilíbrio é possível, mas exige planejamento. O médico mantém rotina com prática de atividade física, incluindo tênis e academia, como parte essencial do bem-estar.

Vale a pena seguir a ortopedia?

Para quem busca uma especialidade prática, com possibilidade de intervenção direta e resultados concretos, a ortopedia pode ser um caminho consistente, desde que haja disposição para uma formação longa e exigente.

“A palavra-chave é resiliência. É uma construção de longo prazo, que exige dedicação, estudo contínuo e consistência”, afirma.

Ao avaliar sua trajetória, Varone afirma que escolheria novamente seguir a especialidade. “A ortopedia permite devolver mobilidade, autonomia e qualidade de vida. Esse impacto é o que mais motiva”, finaliza.