Dermatologia exige raciocínio clínico refinado e vai além da estética

Especialistas explicam por que a área exige diagnóstico preciso e enfrenta pressão estética e alta competitividade

PRISCILLA VIERROS

08/04/2026 • 12:46 • Atualizado em 08/04/2026 • 12:46

Dermatologia vai além da estética

Dermatologia vai além da estética

Freepik

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre especialidades médicas, desenvolvida para auxiliar estudantes de medicina na escolha de suas futuras carreiras. O objetivo é apresentar os bastidores, os desafios e a realidade prática de cada área, oferecendo um guia realista para quem está prestes a decidir seu caminho profissional. Neste episódio, a dermatologia é o foco.

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À primeira vista, a dermatologia pode parecer uma das especialidades mais “tranquilas” da medicina: consultório, procedimentos estéticos e rotina previsível. Na prática, porém, essa imagem --comum entre estudantes-- esconde decisões complexas e uma responsabilidade que impacta diretamente a saúde e a identidade dos pacientes.

Diferentemente do que muitos imaginam, a escolha pela dermatologia raramente nasce do interesse por estética. É o que mostram as trajetórias das médicas Loianna Mascarenhas da Fonseca, 33, e Bhertha Miyuki Tamura, 62.

Elas têm quase 30 anos de diferença e, para ambas, a dermatologia não foi a primeira opção. Bhertha afirma que o que a atraiu na especialidade foi a complexidade. “Na dermatologia, descobri que uma mancha pode ser o primeiro sinal de inúmeras doenças. A especialidade exige profundo conhecimento geral para que possamos alcançar um diagnóstico preciso”, afirma.

Antes da dermatologia, ela passou pela cirurgia geral, em um contexto marcado por preconceito contra mulheres na área. A mudança surgiu como a busca por um novo espaço profissional, mas acabou revelando uma complexidade que não imaginava. “Eu achava que seria uma especialidade fácil. Descobri que é uma das mais difíceis da medicina”, pontua.

No caso de Loianna, a escolha veio após uma formação intensa em clínica médica e de uma experiência pessoal. Em 2019, após o falecimento da avó materna, recebeu o diagnóstico de alopecia. Ao lidar com um quadro associado a fatores emocionais, passou a enxergar a pele como reflexo direto da saúde e da identidade.

Loianna explica que, para ela, a dermatologia não é apenas uma especialidade, mas um campo de cuidado com impacto direto na identidade e na autoestima do paciente. “Isso foi determinante na minha escolha”, afirma.

A médica Loianna Mascarenhas da Fonseca I Crédito: Arquivo pessoal

A médica Loianna Mascarenhas da Fonseca I Crédito: Arquivo pessoal

A rotina: entre consultório, diagnósticos e procedimentos

Na prática, o dia a dia do dermatologista é menos previsível do que parece. Diferentemente de outras áreas, em que exames complementares direcionam o raciocínio, na dermatologia o olhar clínico é determinante.

Casos aparentemente simples podem se transformar em investigações longas, como o de uma paciente com lesões persistentes, inicialmente tratadas como dermatite comum, mas que exigiram revisão completa da história, exames e biópsia para definição diagnóstica. “Uma mesma lesão pode representar doenças completamente diferentes”, explica a Dra. Loianna.

A rotina de Loianna é predominantemente ambulatorial, com atendimentos clínicos durante o dia e procedimentos estéticos no período noturno. A carga semanal gira em torno de 40 horas, hoje mais organizada, após períodos de exaustão intensa, incluindo plantões em terapia intensiva.

Cerca de 80% dos atendimentos são clínicos, como acne, melasma, dermatites, queda capilar e doenças inflamatórias. Os outros 20% envolvem procedimentos estéticos. Essa divisão revela um ponto central da especialidade: clínica e estética não são áreas separadas, mas complementares. “A base de tudo é o diagnóstico. Mesmo na estética, o olhar precisa ser clínico”, diz Loianna.

Médica Bhertha Miyuki Tamura I  Crédito: Arquivo pessoal

Médica Bhertha Miyuki Tamura I  Crédito: Arquivo pessoal

Para Bhertha, essa lógica é ainda mais rigorosa. Independentemente da queixa do paciente, a consulta começa sempre da mesma forma: um exame completo da pele. “Uma consulta estética pode revelar uma doença grave. Já houve diagnóstico de câncer de pele em pacientes que buscavam apenas procedimentos estéticos.”

Pressão estética e redes sociais

A popularização de procedimentos nas redes sociais criou uma demanda por resultados imediatos que nem sempre são possíveis. Loianna afirma que a medicina não funciona com transformações instantâneas e que o imediatismo dos pacientes gera uma pressão adicional sobre o profissional.

Para Bhertha, parte essencial do trabalho atual é saber dizer “não” e desacelerar o paciente. O desafio, muitas vezes, é convencer o indivíduo de que determinado procedimento não é necessário ou seguro para o seu caso.

Desgaste e realidade do mercado

Embora ofereça maior previsibilidade de horários do que especialidades de emergência, a dermatologia impõe desgaste emocional constante. Loianna, por exemplo, enfrentou um quadro de burnout em 2024, o que a levou a reorganizar a rotina para preservar a saúde mental.

Já para Bhertha, o desgaste está relacionado à desinformação. Pacientes chegam influenciados por conteúdos equivocados, o que dificulta o alinhamento e aumenta a frustração. “A falsa expectativa prejudica tanto o paciente quanto o médico.”

Além disso, o impacto da internet impulsiona a popularização da estética e reforça a busca por resultados rápidos e, muitas vezes, irreais. “Vivemos uma era de imediatismo”, afirma Loianna. “As pessoas esperam transformações instantâneas, mas a medicina não funciona assim.”

Essa pressão exige uma habilidade que vai além da técnica: saber dizer “não”. Para Bhertha, parte do trabalho é justamente desacelerar o paciente. “O desafio, muitas vezes, é convencer que um procedimento não é necessário.”

Além da carga emocional, o mercado tornou-se altamente competitivo. A dermatologia é hoje uma das especialidades mais disputadas da medicina, o que eleva o nível de exigência. “Não basta se formar. É preciso se diferenciar”, afirma Loianna.

Segundo as especialistas, não há exatamente uma saturação de vagas, mas sim uma carência de qualidade técnica. O sucesso na carreira exige investimento contínuo em equipamentos, estrutura e atualização, o que desmistifica a ideia de lucro fácil e imediato.

Para se manter na área, é necessário investir constantemente em formação, atualização e estrutura, além da construção de reputação profissional.

Bhertha reforça que o problema não é a saturação, mas a qualidade. “O mercado está saturado de práticas sem base científica. Para quem faz medicina de verdade, ainda há espaço.”

Para quem a dermatologia faz sentido

Apesar dos desafios, as médicas reafirmam a escolha pela especialidade. Para elas, o que sustenta a carreira é o impacto profundo na autoestima e no bem-estar de quem busca ajuda. “A pele carrega identidade e saúde”, resume Loianna.

Para Bhertha, o fascínio está na complexidade: “Um único olhar pode mudar completamente o destino de um paciente.”

O conselho para novos estudantes é que a dermatologia não é para quem busca facilidade, mas para quem aceita a responsabilidade de lidar com diagnósticos desafiadores e expectativas reais. A estética pode atrair, mas é a consistência técnica, emocional e ética que sustenta a carreira no longo prazo.