O que as séries não te contam sobre a faculdade de medicina

Entre expectativas irreais e uma rotina exigente, estudantes revelam os bastidores da formação médica

PRISCILLA VIERROS

09/05/2026 • 11:00 • Atualizado em 09/05/2026 • 11:00

Antes mesmo da aprovação, o preparo psicológico é essencial para lidar com os impactos emocionais do curso

Antes mesmo da aprovação, o preparo psicológico é essencial para lidar com os impactos emocionais do curso

Crédito: Magnific

Quem decide cursar medicina, muitas vezes, chega à faculdade com uma imagem construída por séries como Grey’s Anatomy: plantões intensos, diagnósticos brilhantes e uma rotina quase heroica. Mas, fora da ficção, o que predomina durante o curso não é o glamour, e sim habilidades como o controle emocional e a disciplina constante.

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A experiência de estudantes como Luanna Conde, 25, e Kamila Corrêa dos Santos, 23, revela a realidade que poucos contam antes do vestibular. A vivência acadêmica de ambas mostra a necessidade de desconstruir o imaginário romantizado da medicina para conseguir permanecer no curso sem adoecer no processo.

Expectativa vs. Realidade

“Eu achava que seria bem mais tranquilo. Aquela impressão estilo Grey’s Anatomy que todo mundo tem antes de entrar. Mas definitivamente não é isso”, comenta Kamila. Hoje, no sétimo período de medicina, ela descreve uma rotina intensa, marcada por estudo contínuo, cobranças internas e um nível de exigência que cresce progressivamente.

Kamila Corrêa I Crédito: Arquivo pessoal

Kamila Corrêa I Crédito: Arquivo pessoal

Ela explica que, no modelo PBL (Problem-Based Learning), em que o aluno assume papel ativo na construção do conhecimento, não há espaço para passividade. “Não dá para passar um dia sem estudar”, afirma.

Esse cenário contrasta diretamente com a expectativa inicial de alguns vestibulandos, que podem ter uma expectativa do curso de uma jornada mais linear e guiada, como no ensino médio ou cursinho.

O impacto emocional é um fator que deve ser levado em conta. Kamila reforça a necessidade de não negligenciar a saúde mental. “Se você não tiver um tempo para você, você surta”, diz.

A adaptação à rotina, muitas vezes longe da família e inserido em um ambiente competitivo, intensifica esse cenário. Por isso, construir uma rede de apoio e manter vínculos fora da faculdade deixam de ser opcionais e tornam-se estratégicos para a permanência no curso.

Nem todo caminho é linear

Se, por um lado, Kamila representa o impacto do choque entre expectativa e a realidade, a trajetória de Luanna oferece um contraponto. Diferente do caminho direto do ensino médio para a medicina, Luanna passou por outra graduação antes de ser aprovada.

Luanna Conde I Crédito: Arquivo pessoal

Luanna Conde I Crédito: Arquivo pessoal

Para ela, que também traz na bagagem a disciplina do esporte equestre, o papel da maturidade emocional é fundamental no enfrentamento dessa realidade da rotina universitária.

Luanna acredita que essas experiências anteriores funcionaram como um preparo invisível para a graduação. Ao ingressar na medicina, tinha clareza sobre sua escolha e mais repertório emocional para lidar com frustrações, pressão e exigência.

Nesse sentido, a disciplina adquirida no esporte, somada ao amadurecimento pessoal, tornou a adaptação mais consciente, ainda difícil, mas menos idealizada.

Organização, autonomia, inteligência emocional e resiliência aparecem como competências fundamentais para ambas. Além disso, há um desafio identitário. Em um ambiente altamente competitivo, é comum que o estudante se reduza ao desempenho acadêmico. Tanto Kamila quanto Luanna fazem um alerta de que isso pode ser perigoso.

“Existem outras versões de você além do estudante de medicina”, diz Kamila. Luanna reforça essa ideia ao manter sua conexão com o estilo de vida country, a música e o esporte, mesmo durante a graduação.

Vale a pena se preparar antes de passar em medicina?

As entrevistadas reforçam que entrar na faculdade sem uma visão realista pode aumentar o risco de frustração, esgotamento e sofrimento emocional no início do curso. Por outro lado, desenvolver maturidade, autoconhecimento e estratégias de cuidado antes mesmo da aprovação pode transformar completamente a experiência.

A medicina, para ambas, é uma escolha com propósito. Mas, distante da idealização, ela se revela como um caminho que exige preparo psicológico tanto quanto dedicação acadêmica.

No fim, talvez o que as séries não mostrem seja justamente o mais importante: que formar-se médico não é apenas aprender a cuidar do outro, mas, antes disso, aprender a sustentar a própria saúde mental ao longo do caminho.